De 770 milhões de financiamento para uma queda de 92% no preço da moeda, o projeto estrela DePIN WeatherXM passou por o que?

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Em maio de 2024, WeatherXM foi ao mercado. Este projeto DePIN, que afirma ser a “maior rede de clima impulsionada por comunidade do mundo”, com o halo de uma rodada A de 7,7 milhões de dólares liderada pela Lightspeed Faction, conta ainda com uma longa lista de instituições de topo: Protocol Labs, Borderless Capital, Arca, Placeholder VC, Consensys Mesh. No mês de lançamento, o token WXM atingiu um pico histórico de 2,36 dólares, brilhando intensamente.

Na época, a história era bastante sedutora: usuários compram hardware de estações meteorológicas, coletam dados locais, e após validação, recebem tokens como recompensa. Menos de dois anos depois, o projeto alegava ter implantado mais de 5000 estações em mais de 80 países, com dados até sendo utilizados pelo Aeroporto Internacional de Atenas. Hardware espalhado pelo mundo, dados adquiridos por instituições, tokens circulando na cadeia Arbitrum e Solana — quase uma narrativa perfeita para o setor DePIN.

Porém, há outro lado na história, com números diferentes.

Até janeiro de 2026, o preço do token WXM caiu para 0,039 dólares, uma queda de 98,4% em relação ao pico histórico. Investidores iniciais, que compraram a 1,5 dólares na estreia, tiveram uma perda de 97,4%. No último ano, o preço do token caiu em todos os períodos: 22% em 7 dias, 20% em 30 dias, 92% em 365 dias. Não foi uma simples correção, mas uma quase anulação do valor do ativo.

Ainda mais alarmante são os dados de detenção de tokens. O WXM possui apenas 292 endereços de detentores, com volume de negociação de menos de 20 mil dólares em 24 horas, e liquidez quase inexistente. Um projeto que se autodenomina “impulsionado por comunidade global” tem, na prática, menos usuários participando do mercado secundário do que uma lan house em uma cidade pequena.

O maior risco está no modelo econômico do token. Com um total de 100 milhões de tokens, apenas 5 milhões estão em circulação, ou seja, uma taxa de circulação de 5%. Isso significa que ainda há 95 milhões de tokens a serem desbloqueados — independentemente do preço atual, há uma pressão de venda maior no horizonte. Dados na blockchain mostram que as três maiores carteiras detêm 82,16% do total, sendo que a maior sozinha possui 39,15%. Essa concentração é bastante distante do conceito de “descentralização”.

  1. As fissuras nos dados: de 7800 para 5000 estações

Os responsáveis pelo projeto afirmaram nas redes sociais que já implantaram mais de 7800 estações meteorológicas. Contudo, em anúncios de rodada A e em várias fontes confiáveis, esse número foi ajustado para “mais de 5000”. Até janeiro de 2026, o número real de estações ativas pode ser ainda menor.

Isso não é exagero, mas uma prática comum no setor DePIN de “dilatação de números”. Espalhar hardware pelo mundo exige cadeias de suprimentos, logística e operações locais — cada passo, um buraco sem fundo de gastos. Distribuindo 5000 dispositivos em mais de 80 países, a média por país é pouco mais de 60 estações. Essa densidade é suficiente para sustentar a narrativa de uma “rede global de clima”? Essa é uma questão.

Outro desafio é a qualidade dos dados. Como apontam especialistas, projetos DePIN que tentam escalar com equipamentos baratos frequentemente enfrentam queda na qualidade dos dados. Sem dados de alta qualidade e exclusivos, uma rede realmente valiosa não pode existir. O uso do WeatherXM pelo aeroporto de Atenas é um destaque, mas uma única compra institucional não sustenta toda a rede com valor comercial.

  1. O colapso do token: quem vende, quem compra

Em maio de 2024, o WXM foi lançado na exchange, atingindo um pico de 2,36 dólares. Desde então, caiu quase sem parar, sem uma recuperação significativa.

A causa do declínio é simples. Primeiro, a narrativa perdeu força. Em 2024, o setor DePIN ainda era um dos mais quentes, mas em 2025, o mercado começou a desacreditar no modelo “dispositivo físico + incentivo em tokens”. Dados da Delphi Digital mostram que tokens relacionados a DePIN e IA caíram, em média, mais de 80% em 2025, ficando na penúltima posição entre setores.

Segundo, a liquidez se esgotou. Com volume de negociação de menos de 20 mil dólares em 24 horas, qualquer venda pode puxar o preço para novos mínimos. Com apenas 292 endereços de detentores, o mercado é quase inexistente, e grandes investidores não encontram contrapartes para vender.

Terceiro, a pressão de desbloqueio é uma ameaça constante. Com uma taxa de circulação de 5%, ainda há 95 milhões de tokens nas mãos do time, investidores e parceiros, que ainda não foram liberados. Mesmo com o preço baixo, qualquer desbloqueio futuro impede que novos compradores entrem.

  1. Mudança de narrativa: “não é mais um experimento de criptomoedas”

Em janeiro de 2026, o WeatherXM publicou no LinkedIn uma mensagem intrigante. O título era “Entrando em 2026 com foco, tração e direção”. O post dizia: “WeatherXM não é mais um experimento de criptomoedas, é uma infraestrutura do mundo real.”

A equipe anunciou que a empresa passaria de “Go-to-Market” para “Go-to-Value”, focando em gerar receita baseada em inteligência climática. As demandas vêm de agricultura, energia, seguros, logística — setores que precisam de precisão e confiabilidade, não de narrativa cripto. O setor de seguros foi o primeiro a validar, com produtos de seguro paramétrico global, baseados em observações meteorológicas em tempo real e provas na cadeia.

Ao mesmo tempo, a equipe começou a desenvolver uma “rede de agentes” (agentic web), permitindo que sistemas autônomos obtenham entradas confiáveis do mundo físico. Com soluções compatíveis com x402, a DAO pode vender conjuntos de dados diretamente a instituições de pesquisa e modelos de IA, criando uma receita sustentável.

Resumindo: os responsáveis perceberam que vender tokens não sustenta o modelo de negócio. Precisam conquistar clientes B2B com dinheiro de verdade. Assim, o token WXM foi gradualmente marginalizado nessa nova narrativa — deixando de ser o principal incentivo, passando a ser uma ferramenta de governança e compra de dados.

  1. A verdade sobre DePIN: lista de financiamentos reluzente, comunidade morta

A experiência do WeatherXM não é única no setor DePIN.

Comentadores nas redes sociais dizem: “Lista de financiamentos reluzente, comunidade morta, essa desconexão é comum no DePIN. Uma falsa prosperidade.” Outro usuário comentou: “Financiamentos brilhantes, comunidade silenciosa, esse padrão é repetido demais.”

No início de 2026, uma forte discussão sobre DePIN explodiu no mundo das criptomoedas. Meltem Demirors, sócia fundadora da Crucible Capital, afirmou no X: “DePIN está morrendo, não vejo como pode voltar.” Ela criticou o modelo de token, dizendo que “nega os princípios físicos da economia” — quando o mercado busca eficiência, o modelo ideológico de distribuição se torna um peso.

Dan Elitzer, sócio da Nascent, foi mais direto: “Eles evitam esse setor, achando que DePIN é quase todo uma ICO de tokens de falsa descentralização, que resulta em infraestrutura menos eficiente.”

O problema está no conflito entre custos de hardware e custos de capital. Especialistas apontam que, ao tentar escalar com equipamentos mais baratos, a qualidade dos dados cai; se os dispositivos forem caros, é preciso recompensas maiores em tokens para cobrir custos, criando um ciclo difícil de quebrar.

  1. Quanto tempo leva para um usuário comum recuperar o investimento em uma estação meteorológica?

O hardware de uma estação meteorológica custa entre 400 e 900 dólares, dependendo do modelo e acessórios. Usuários compram, implantam e conectam, contribuindo com dados e recebendo WXM como recompensa.

Com o preço atual do token a 0,039 dólares, o período de retorno é uma equação cruel. Supondo que uma estação gere 20 dólares em WXM por mês (uma estimativa otimista), o retorno leva de 20 a 45 meses. Nesse período, o preço do token pode continuar caindo, a pressão de desbloqueio aumenta, o equipamento pode se deteriorar, e os dados podem ser descartados.

Mais importante, o valor da recompensa em tokens depende de alguém querer comprá-los no mercado secundário. Com apenas 292 endereços e volume diário de menos de 20 mil dólares, essa hipótese já é bastante frágil.

Conclusão

No início de 2026, o time do WeatherXM publicou no LinkedIn: “Para DAO e tokens, o sucesso depende da execução. Vamos tornar isso visível. Até o final de 2026, ofereceremos maior transparência em governança e fluxo de valor.”

Essa mensagem pode ser interpretada de duas formas:

Uma otimista: o time reconhece os problemas, está mudando para um modelo de negócio real, e há esperança no futuro.

Outra pessimista: os responsáveis admitem que, nos últimos dois anos, estiveram apenas “construindo a infraestrutura” e “validando demandas”, sem alinhar valor de tokens e DAO. E que só em 2026 vão oferecer transparência — ou seja, os detentores de WXM terão que esperar mais 10 meses.

De uma rodada de financiamento de 7,7 milhões de dólares, com queda de 92% no valor do token, de 5000 estações para 292 endereços, a história do WeatherXM é um exemplo clássico de uma narrativa DePIN que não se sustentou. Tem hardware real, financiamento real, respaldo de instituições reais — mas tudo isso não foi suficiente para sustentar o valor do token.

Quando a bolha estourar, o que sobra é a questão: se um projeto precisa vender tokens para incentivar a contribuição de dados, e esse token não tem liquidez nem demanda, como ele consegue se manter?

A resposta do WeatherXM é focar na receita B2B, diminuir o papel do token, e transformar-se em uma infraestrutura do mundo real. Essa resposta é certa? Só em 2026 saberemos. Mas, para usuários comuns que compraram no pico de 2024 ou gastaram 900 dólares em uma estação em 2025, já é tarde demais.

Pelo menos agora eles sabem: projetos com listas de financiamento reluzentes podem ter comunidades que parecem mortas.

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