As ações do Circle Internet Group voltaram a estar em destaque no mercado este mês, e a reação dos traders foi rápida.
As ações da Circle Internet Group Inc. (NYSE: CRCL)—a empresa por trás da stablecoin USDC—mais do que duplicaram no último mês, sendo negociadas entre $120 e $124 nesta semana, com um aumento de cerca de 7% a 8% durante as sessões de hoje. Esse tipo de movimento geralmente requer um milagre, uma mania ou uma planilha que fez os analistas cuspirem o café. Neste caso, parece ser a planilha.
O gatilho ocorreu em 25 de fevereiro, quando a Circle divulgou resultados do quarto trimestre e do ano completo de 2025 que superaram as expectativas de Wall Street. O mercado reagiu como um jurado de reality show reage a uma audição surpresa: alto, dramático e um pouco exagerado. As ações saltaram cerca de 30% a 35% em uma única sessão—o maior salto diário da Circle desde seu IPO de 2025—e o ímpeto não diminuiu desde então.
Ações da Circle na segunda-feira, 16 de março de 2026. Fonte da imagem: Tradingview.
Por trás da alta está o uso crescente do USDC, uma stablecoin atrelada ao dólar que circula por mais de 30 blockchains. Até o final de 2025, a circulação de USDC atingiu US$ 75,3 bilhões, um aumento de 72% em relação ao ano anterior, enquanto a circulação média cresceu 100%. Em outras palavras, muito mais dólares digitais estão circulando do que há um ano.
A atividade de transações contou uma história semelhante. O USDC processou cerca de US$ 11,9 trilhões em volume de transações na blockchain no quarto trimestre, um aumento de 247% em relação ao ano anterior. Esses números sugerem que as stablecoins estão sendo usadas para muito mais do que especulação—pense em pagamentos, gestão de tesouraria e redes de liquidação que silenciosamente fazem o trabalho nos bastidores do sistema financeiro.
A receita da Circle seguiu o fluxo de dinheiro. A empresa reportou US$ 770 milhões em receita total e renda de reservas no trimestre, um aumento de 77% em relação ao ano anterior e acima das estimativas de Wall Street, próximas de US$ 739 milhões. A maior parte disso—US$ 733 milhões—veio da renda gerada pelas reservas que apoiam o USDC.
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O lucro líquido das operações contínuas atingiu US$ 133 milhões, enquanto o EBITDA ajustado subiu para US$ 167 milhões, mais de quatro vezes maior do que no ano anterior. O lucro por ação atribuível aos acionistas comuns foi de US$ 0,56 básico e US$ 0,43 diluído, em comparação com praticamente nada no ano anterior.
Para contextualizar, a história das ações da Circle parece uma peça dramática de três atos. A empresa abriu capital em 5 de junho de 2025, precificando ações a US$ 31 e abrindo perto de US$ 69 antes de fechar seu dia de estreia em torno de US$ 83. As ações chegaram a quase US$ 299 durante a empolgação inicial pós-IPO, antes de despencar para cerca de US$ 50 no início deste ano. Agora, está fazendo um retorno que faria uma banda de rock decadente se orgulhar.
Alguns dizem que parte da explicação está na macroeconomia fazendo o que ela faz de melhor—mexer com as expectativas. Os emissores de stablecoins geram receita significativa a partir dos juros sobre os títulos do Tesouro e reservas em dinheiro que apoiam seus tokens. Quando as taxas de juros permanecem mais altas por mais tempo, essas reservas geram mais renda.
Enquanto isso, as stablecoins estão silenciosamente evoluindo para uma infraestrutura financeira, em vez de uma atração secundária de criptomoedas. O USDC é usado em sistemas de pagamento, mercados de previsão, negociação de ativos tokenizados e redes de liquidação empresarial. A empresa também reportou crescimento no número de carteiras ativas, que subiu 59%, atingindo 6,8 milhões.
Os analistas de Wall Street perceberam. Várias firmas elevaram metas de preço ou melhoraram a classificação das ações nas últimas semanas, citando o crescimento das stablecoins, tendências de tokenização e adoção mais ampla de redes de pagamento blockchain. Uma operação de short squeeze—quando traders pessimistas correm para cobrir posições à medida que os preços sobem—provavelmente deu mais combustível ao movimento.
Nada disso significa que a história seja isenta de riscos. O modelo de receita da Circle é sensível às taxas de juros; se os rendimentos caírem drasticamente, a renda das reservas diminui. A empresa também compartilha uma parte significativa dessa renda de reservas com parceiros, incluindo a Coinbase, que historicamente recebe cerca de 56%.
Outro fator óbvio é a concorrência. O USDT da Tether ainda domina o mercado de stablecoins por circulação, e novos entrantes—de bancos a fintechs—estão explorando seus próprios tokens atrelados ao dólar, à medida que os reguladores delineiam regras mais claras para o setor.
Há também o debate sobre a avaliação. Quando uma ação dobra de valor em um mês, os céticos inevitavelmente aparecem com calculadoras e sobrancelhas levantadas.
Ainda assim, uma coisa é clara: as stablecoins não são mais apenas uma curiosidade de criptomoedas sussurrada nas mesas de negociação. Elas estão se tornando cada vez mais parte da infraestrutura do sistema financeiro—e, por enquanto, os investidores parecem perfeitamente felizes em apostar na empresa que vende os canos.