Um TPS (transações por segundo) elevado indica escalabilidade, mas cada transação extra aumenta a carga dos nós responsáveis por assegurar a descentralização da rede.
O TPS é utilizado amplamente como métrica de desempenho para blockchains, mas este valor isolado não reflete com exatidão a verdadeira escalabilidade da rede.
Carter Feldman, fundador da Psy Protocol e antigo hacker, explicou à Cointelegraph que as estatísticas de TPS podem induzir em erro, pois não consideram a forma como as transações são realmente validadas e propagadas em sistemas descentralizados.
“Muitos testes pré-mainnet, testnets ou ambientes isolados medem o TPS apenas com um nó. Nesses casos, poder-se-ia até afirmar que o Instagram é uma blockchain capaz de 10 mil milhões de TPS, já que uma entidade central valida todas as chamadas de API”, afirmou Feldman.
Esta problemática resulta, em parte, da filosofia de design predominante nas blockchains. À medida que as redes procuram maior velocidade, a carga de trabalho de cada nó aumenta, tornando a descentralização mais difícil. Separando a execução da validação das transações, é possível mitigar este peso até certo ponto.

Novos projetos publicitam TPS elevados, mas a utilização real da rede raramente atinge o máximo anunciado. Fonte: MegaETH
O TPS pode ser um referencial válido para o desempenho da blockchain—quanto maior o TPS, maior a capacidade da rede para utilização prática.
No entanto, Feldman salienta que a maioria dos valores de TPS destacados são idealizados e difíceis de transpor para o débito real do mainnet. Estatísticas impressionantes não traduzem o desempenho dos sistemas em ambientes descentralizados.
“O TPS medido numa máquina virtual ou num único nó não representa o desempenho real de uma blockchain em mainnet”, afirmou Feldman.
“Mesmo assim, o número de transações que uma blockchain processa por segundo em produção é uma forma prática de avaliar a sua escalabilidade—é o cerne do scaling.”
Cada nó completo deve verificar se as transações cumprem as regras do protocolo. Se um nó aceitar uma transação inválida, os restantes têm de rejeitá-la. Este é um princípio fundamental do funcionamento de um registo descentralizado.
O desempenho de uma blockchain é geralmente medido pela velocidade de execução das transações na máquina virtual, mas em condições reais, a largura de banda, a latência e a topologia da rede são igualmente determinantes. No final, o desempenho depende da eficácia com que as transações são recebidas e validadas pelos restantes nós.
Por conseguinte, os valores de TPS apresentados em whitepapers divergem frequentemente da performance em mainnet. Testes que separam execução dos custos de propagação e validação medem sobretudo a velocidade da máquina virtual, não a escalabilidade da blockchain.
A EOS, onde Feldman desempenhou funções de block producer, estabeleceu recordes históricos durante a sua oferta inicial de tokens. O whitepaper referia um TPS teórico de 1 milhão—um valor que se destacaria mesmo em 2026.
A EOS nunca atingiu o seu objetivo teórico de TPS. Relatórios iniciais apontavam para um processamento de 4 000 transações por segundo em condições ideais. No entanto, investigação da Whiteblock indicou que o débito real era de apenas cerca de 50 TPS.
Em 2023, a Jump Crypto demonstrou o cliente validador Firedancer da Solana, alcançando o marco de 1 milhão de TPS em teste, que a EOS nunca atingiu. Muitos validadores executam agora a versão híbrida, Frankendancer. Em condições reais, a Solana processa tipicamente entre 3 000 e 4 000 transações por segundo, das quais cerca de 40% são transações não relacionadas com votos—um reflexo mais próximo da atividade real dos utilizadores.

A 10 de fevereiro, o TPS de transações não relacionadas com votos da Solana foi de 1 361. Fonte: Solscan
O débito de uma blockchain cresce geralmente de forma linear com a carga de trabalho. Mais transações aumentam a atividade, mas obrigam cada nó a receber e validar mais dados.
Cada transação adicional aumenta o esforço computacional. A partir de certo ponto, salvo se a descentralização for sacrificada, largura de banda, hardware e latência de sincronização tornam o scaling linear insustentável.
Feldman afirma que ultrapassar este limite exige repensar as provas de validade—por exemplo, com tecnologia zero-knowledge (ZK). O ZK permite provar um conjunto de transações sem que cada nó tenha de as voltar a executar. Ao permitir validação sem expor todos os dados, o ZK é também considerado uma solução de privacidade.
Feldman acredita que provas ZK recursivas podem ajudar a resolver os desafios de escalabilidade. Essencialmente, trata-se de usar uma prova para validar outras provas.
“Pode combinar-se duas provas ZK numa nova prova ZK que valida a correção das duas anteriores”, explicou Feldman. “Assim, pode fundir duas provas numa só.”
“Por exemplo, com as transações de 16 utilizadores, pode convertê-las em 8 provas, depois juntar essas 8 em 4 provas”, detalhou Feldman, mostrando um diagrama de árvore de provas em múltiplos níveis que converge numa só prova.

Como múltiplas provas são fundidas numa só. Fonte: Psy/Carter Feldman
Nas arquiteturas blockchain tradicionais, aumentar o TPS eleva os requisitos de validação e largura de banda de cada nó. Feldman destaca que as arquiteturas baseadas em provas permitem aumentar o débito sem aumentar proporcionalmente a carga de validação dos nós.
Isto não significa que o ZK elimine todos os compromissos do scaling. A geração de provas é exigente em termos computacionais e pode requerer infraestrutura especializada. A validação torna-se mais acessível para os nós comuns, mas o trabalho exigente passa para os provers que gerem a criptografia avançada. Integrar validação baseada em provas nas arquiteturas blockchain existentes é desafiante, razão pela qual as redes mainstream continuam a recorrer a modelos de execução tradicionais.
O TPS não é irrelevante, mas o seu valor depende do contexto. Feldman salienta que sinais económicos—como as comissões de transação—oferecem uma perspetiva mais clara sobre a saúde e procura da rede do que apenas o débito.
“Considero que o TPS pode ser a segunda métrica mais importante para o desempenho de uma blockchain, mas apenas em produção, ou quando as transações não são só processadas, mas também encaminhadas e validadas por outros nós”, afirmou.

A LayerZero Labs apresentou a Zero chain, alegando que a tecnologia ZK permite escalar até 2 milhões de TPS. Fonte: LayerZero
As arquiteturas blockchain mainstream influenciam também as decisões dos investidores. Cadeias de execução sequencial são difíceis de migrar para validação baseada em provas sem uma reformulação completa do processamento de transações.
“No início, quase todo o financiamento foi apenas para projetos ZK EVM (Ethereum Virtual Machine)”, detalhou Feldman, ao descrever os desafios iniciais de financiamento da Psy Protocol.
“Ninguém queria investir porque era demasiado moroso. Não é possível simplesmente ‘fazer fork’ ao EVM ou ao seu armazenamento de estado, pois tudo é gerido de forma totalmente diferente.”
Na maioria das blockchains, um TPS elevado significa maior carga para cada nó. Um valor elevado isolado não garante que essa carga seja sustentável.





