O setor das stablecoins sintéticas representa uma das inovações financeiras mais relevantes no ecossistema de finanças descentralizadas. O seu objetivo principal é criar um ativo estável independente do sistema bancário tradicional, assegurando transparência, elevada eficiência de capital e funcionamento fiável a longo prazo. De acordo com a CoinGecko, a 5 de fevereiro de 2026, a capitalização global de mercado das stablecoins atingiu 309 mil milhões de USD, com um volume diário de negociação em torno de 160 mil milhões de USD.
Enquanto projetos emblemáticos de duas abordagens distintas — stablecoins sintéticas sobrecolateralizadas e delta neutras — a Falcon Finance e a Ethena apresentam diferenças marcantes ao nível da eficiência de capital, resistência ao risco e fontes de rendimento. Estas duas soluções ilustram as principais tendências que moldam o futuro das stablecoins sintéticas.
O presente artigo analisa em detalhe os modelos diferenciados da Falcon Finance e da Ethena, comparando mecanismos de rendimento, tipos de colateral e estratégias de gestão de risco, para proporcionar ao leitor uma visão clara das oportunidades e perspetivas de evolução deste setor.
A Falcon Finance (FF) é um protocolo de colateralização de uso geral concebido para ambientes DeFi multichain. Tem como objetivo principal disponibilizar um dólar sintético, garantido por sobrecolateralização e rendimento de ativos do mundo real (RWA), oferecendo a utilizadores e instituições uma fonte de rendimento transparente e sustentada por ativos.
A Ethena é um protocolo de dólar sintético desenvolvido sobre Ethereum, que cria a stablecoin USDe através de uma estratégia delta neutra. O protocolo detém ativos cripto à vista e, em simultâneo, abre posições curtas equivalentes em futuros perpétuos. Esta arquitetura resulta numa stablecoin independente da infraestrutura bancária tradicional. O principal atrativo da Ethena reside na combinação de recompensas de staking com taxas de financiamento de futuros, posicionando a USDe como uma “obrigação digital”. Contudo, esta abordagem implica exposição às condições dos mercados de derivados em períodos de forte volatilidade.
Embora ambos os projetos pertençam ao segmento das stablecoins sintéticas, a Falcon Finance e a Ethena distinguem-se significativamente nos mecanismos centrais, prioridades estratégicas e modelos de gestão de risco.
Para ilustrar estas diferenças, a tabela seguinte compara Falcon Finance e Ethena em vários aspetos, incluindo mecanismos centrais, métricas de TVL ou oferta, tipos de colateral, fontes de rendimento e foco de inovação.
| Dimensão | Falcon Finance | Ethena |
|---|---|---|
| Mecanismo central | USD sintético sobrecolateralizado (USDf) | USD sintético delta neutro (USDe) |
| TVL / oferta | Oferta de USDf 2,06 mil milhões $ (4 jan 2026) | TVL máximo 14,9 mil milhões $ (out 2025) |
| Tipos de colateral | Stablecoins, ativos cripto não estáveis, RWA (ouro, obrigações do Estado) | Principais ativos cripto (BTC, ETH) + futuros perpétuos |
| Fontes de rendimento | Rendimento do colateral + rendimento de RWA | Arbitragem de taxa de financiamento + recompensas de staking |
| Foco de inovação | Integração de RWA, cofres offline | Expansão cross-chain, estratégias de derivados |
Esta comparação evidencia as principais diferenças entre Falcon Finance e Ethena:
A Falcon Finance aposta na diversidade de colateral e na integração de RWA, recorrendo à sobrecolateralização para mitigar o risco. Esta abordagem revela-se mais adequada a investidores conservadores e instituições, com a oferta global de USDf a registar um crescimento estável e sustentado.
A Ethena baseia-se sobretudo em estratégias com derivados. Apesar de apresentar um TVL superior, é também mais volátil, sendo os retornos impulsionados pela arbitragem de mercado. Por isso, a Ethena é mais indicada para utilizadores DeFi nativos com maior apetite pelo risco.
No contexto das finanças descentralizadas, o modelo de rendimento de uma stablecoin determina diretamente o seu perfil de risco e retorno.
A Falcon Finance segue a lógica clássica do DeFi, garantindo a segurança dos ativos através de colateralização superior a 100 por cento. O seu mecanismo permite aos utilizadores emitir USDf ao colateralizar principais ativos cripto, stablecoins como USDT ou RWA. Em suma, converte o “juro” dos ativos subjacentes numa stablecoin.
De acordo com o desenho da Falcon, as receitas do protocolo incluem a valorização dos ativos subjacentes, como uma TAEG de 3 a 5 por cento gerada pelo staking de BTC, juros fixos de RWA como obrigações do Tesouro dos EUA e cerca de 5,22 por cento em recompensas adicionais pelo staking do token de governança FF.
Este modelo de rendimento é altamente previsível, com origem na economia real ou em protocolos base, tornando-se menos suscetível à volatilidade do mercado. No entanto, o teto de rendimento é relativamente baixo, entre 3 e 8 por cento, e a eficiência de capital é limitada devido à sobrecolateralização.
Já a Ethena utiliza uma estratégia delta neutra de engenharia financeira para criar um dólar sintético sem dependência do sistema bancário tradicional. O seu mecanismo central consiste em abrir uma posição curta equivalente em futuros perpétuos quando os utilizadores colateralizam ativos como ETH. Esta combinação “spot mais short” neutraliza o risco de flutuação de preço.
Na Ethena, o rendimento do protocolo resulta da arbitragem das taxas de financiamento. Como participante short de longo prazo, a Ethena pode alcançar retornos anualizados até 10 a 20 por cento, além de recompensas de rede geradas pelos próprios ativos colateralizados, como o staking de Ethereum via stETH.
Assim, a Ethena oferece um potencial de rendimento muito elevado, superando o DeFi tradicional em mercados bull. Contudo, estes retornos são extremamente voláteis. Caso as condições de mercado se invertam e as taxas de financiamento passem a negativas, o protocolo poderá enfrentar perdas prolongadas.
Quando se avalia a segurança e sustentabilidade dos protocolos de stablecoins, a composição do colateral subjacente é um dos principais fatores de resiliência.
A Falcon Finance procura ligar ativos on-chain e off-chain, construindo um pool diversificado e alinhado com a regulação. Ao contrário dos protocolos tradicionais, a Falcon suporta não só BTC e ETH, como também obrigações do Estado tokenizadas, ouro e colateral imobiliário através de parceiros externos.
A 7 de janeiro de 2026, a Falcon lançou um cofre de rendimento que integra diretamente colateral BTC offline, permitindo aos detentores de Bitcoin obter rendimentos anuais estáveis de 3 a 5 por cento sem necessidade de alienar as suas posições.

Por sua vez, a Ethena mantém-se centrada num ambiente cripto-nativo, com a estabilidade a resultar sobretudo de estratégias de cobertura com derivados.
O colateral subjacente da Ethena depende fortemente de ativos cripto como BTC e ETH, além de tokens de staking líquido. Na prática, este modelo sintetiza dólares recorrendo a alavancagem e posições de cobertura dentro do próprio mercado cripto.
Em termos de diversidade de colateral, a integração de RWA pela Falcon acompanha a tendência de crescimento dos RWA em 2026 e além. Já a Ethena, pela ausência de buffers de ativos do mundo real, apresenta maior concentração de colateral. Se o mercado cripto atravessar condições extremas, como taxas de financiamento negativas prolongadas, as suas posições dependentes de derivados poderão enfrentar forte pressão.
No segmento dos ativos sintéticos, a gestão de risco é não só um mecanismo de proteção para a segurança do mercado, como um fator crítico para a sobrevivência dos protocolos DeFi ao longo dos ciclos de mercado. No início de 2026, com a entrada em vigor de regulamentos como o GENIUS Act, a resiliência das stablecoins ao risco tornou-se uma prioridade no mercado.
A política de gestão de risco da Falcon Finance assenta num “desenho redundante”, com múltiplas camadas defensivas para absorver choques extremos de mercado.
Ao contrário das defesas estruturais da Falcon, a segurança da Ethena depende sobretudo da liquidez e estabilidade estrutural dos mercados de derivados, com uma estratégia baseada na engenharia financeira.
Importa referir que, até ao momento, nem a Falcon Finance nem a Ethena registaram incidentes de segurança graves ou eventos de cisne negro. Ainda que a USDe tenha, temporariamente, perdido a paridade na Binance antes de recuperar, a segurança mantém-se uma prioridade máxima para os projetos de stablecoins.
No setor das stablecoins sintéticas em 2026, Falcon Finance e Ethena representam dois caminhos distintos: uma abordagem centrada na estabilidade e conformidade, e outra de experimentação e alto rendimento.
A Falcon aposta em colateral suportado por RWA e mecanismos defensivos em camadas, privilegiando o controlo do risco e a sustentabilidade dos retornos, sendo mais indicada para instituições e investidores conservadores. Por oposição, a Ethena recorre à cobertura com derivados para obter rendimentos superiores, mas com maior volatilidade e risco, posicionando-se junto de participantes DeFi nativos.
No futuro, a competição deixará de se centrar apenas nos rendimentos de destaque, para passar a ser definida pela estabilidade do rendimento, adaptabilidade regulatória e governação automática do risco. Os protocolos que conseguirem equilibrar risco e retorno deverão afirmar-se como vencedores do próximo ciclo das stablecoins.
P1: Qual é a principal diferença entre Falcon Finance e Ethena?
A Falcon recorre a um modelo de sobrecolateralização e suporta ativos RWA como obrigações do Estado e ouro, valorizando a estabilidade e o alinhamento regulatório. A Ethena utiliza estratégias de cobertura delta neutra e depende dos rendimentos do mercado de derivados, priorizando retornos elevados e eficiência de capital.
P2: Porque são importantes os RWA (ativos do mundo real) para as stablecoins sintéticas?
Os RWA oferecem fluxos de rendimento estáveis, não correlacionados com os mercados cripto, e ajudam os protocolos a cumprir exigências regulatórias em 2026, como a obrigação de stablecoins serem suportadas por ativos físicos ou altamente líquidos, de acordo com quadros como o GENIUS Act.
P3: Que protocolo é mais seguro em eventos de cisne negro?
Em teoria, a Falcon Finance é mais segura devido à combinação de sobrecolateralização, fundos de proteção e cofres offline. A dependência da Ethena dos mercados de derivados expõe-na a potenciais ruturas de liquidez e taxas de financiamento negativas prolongadas em períodos de extrema volatilidade.





