Por que as altcoins não sobem? A corrida pelos ETF oculta a verdade do mercado

Em 2025, um acontecimento sem precedentes ocorreu em Wall Street. Altcoins, outrora considerados “brinquedos especulativos”, foram progressivamente autorizados a serem listados em ETFs de ativos físicos. Em pouco mais de 30 dias, mais de 7 bilhões de dólares entraram nesses fundos, mas os preços das altcoins caíram mais de 20% de forma generalizada. Este fenômeno contraditório indica que uma transformação estrutural no mercado de criptomoedas está a acontecer.

O que a desregulamentação trouxe às altcoins

Em 17 de setembro de 2025, a Securities and Exchange Commission (SEC) dos EUA tomou uma decisão importante. Aprovou a revisão da proposta de “critérios de listagem geral” apresentada pelas três principais bolsas, abrindo uma via rápida para a listagem de ativos digitais que cumpram certos requisitos.

Os requisitos são simples. Primeiro, o ativo deve ter pelo menos seis meses de histórico de negociação num mercado de futuros regulado pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC). Segundo, deve haver precedentes de ETFs que detêm mais de 40% do ativo no mercado.

Com esta mudança regulatória, várias “antigas” alts como Solana, Ripple, Dogecoin, Litecoin e Hedera começaram a ser listadas na NYSE e NASDAQ. Surpreendentemente, enquanto a aprovação de um ETF de Bitcoin spot demorou quase 10 anos, essas altcoins conseguiram listar-se em apenas seis meses. Até ao final de novembro, os ativos sob gestão de seis ETFs de Solana atingiram 843 milhões de dólares, representando 1,09% do valor de mercado do SOL.

O fluxo de fundos aumenta, mas os preços não sobem

O fenômeno mais notável é a clara desconexão entre o fluxo de fundos e a queda de preços. Segundo dados da Coinglass, até meados de novembro, o fluxo líquido acumulado de ETFs principais de altcoins atingiu cerca de 7 bilhões de dólares. Ainda assim, os preços de cada moeda caíram significativamente.

O exemplo mais evidente é Solana. No final de novembro, registou 20 dias consecutivos de fluxo líquido positivo, acumulando 568 milhões de dólares. Mesmo quando os ETFs de Bitcoin e Ethereum enfrentaram saídas massivas em novembro, o ETF de Solana continuou a captar fundos, mesmo sob forte pressão negativa.

De onde vem este fenômeno estranho? A resposta está nos padrões de comportamento dos participantes do mercado.

Dois fatores ocultos nos mecanismos de mercado

Um ciclo típico de “comprar na expectativa e vender para realizar lucros” manifesta-se de forma particularmente evidente no mercado de criptomoedas. Os investidores especulativos antecipam a aprovação de ETFs, posicionando-se previamente, e após a concretização das boas notícias, realizam vendas rápidas, criando uma forte pressão vendedora de curto prazo.

No caso do Ripple, após a listagem do ETF Bitwise XRP, o preço caiu cerca de 7,6%, chegando a uma queda superior a 18% em alguns momentos. Em 28 de fevereiro de 2026, o XRP mantém-se em torno de 1,34 dólares, mas ainda se sente o impacto dessa pressão.

Contudo, o sentimento de mercado de curto prazo não é a única causa. O ambiente macroeconómico também pesa sobre o mercado de criptomoedas. Dados de emprego fortes reduzem as expectativas de cortes de juros, o que, por sua vez, limita o desempenho de ativos de risco. O movimento do Bitcoin, que atingiu um pico de 126.000 dólares no início de 2025 e caiu para perto de 80.000 dólares no final de novembro, é um exemplo. Atualmente, o BTC está a cerca de 65.920 dólares, sugerindo uma recuperação futura.

Os desafios estruturais enfrentados pelos ETFs de altcoins

Além do sentimento de curto prazo, há problemas mais profundos que envolvem os ETFs de altcoins.

Dados da Kaiko revelam uma disparidade esmagadora na profundidade de mercado. Enquanto 1% do mercado de Bitcoin equivale a cerca de 535 milhões de dólares, a profundidade de mercado de muitas altcoins é apenas uma fração disso. Solana (82,26 dólares), Dogecoin (0,09 dólares), Litecoin (53,75 dólares) apresentam uma profundidade de mercado extremamente fraca.

Isto significa que, com entradas de capital de mesmo valor, o impacto sobre os preços das altcoins deveria ser maior do que no Bitcoin. No entanto, o fenômeno de realização de lucros tem vindo a esconder esse efeito.

Outro risco importante é a manipulação de mercado. Muitas altcoins têm baixa liquidez, facilitando a manipulação de preços. Como o valor líquido dos ETFs depende do preço dos ativos subjacentes, qualquer manipulação nas altcoins pode afetar diretamente o valor do ETF, levantando questões legais e regulatórias — uma preocupação significativa para a SEC.

Uma mudança de paradigma a longo prazo

Apesar do desempenho de curto prazo não ser animador, a aprovação dos ETFs de altcoins indica uma transformação estrutural de longo prazo.

A introdução desses ETFs confirma, de facto, a classificação desses ativos como “não valores mobiliários” do ponto de vista legal, abrindo a porta para uma entrada regulamentada em moedas fiduciárias. Os investidores especulativos foram os primeiros a comprar na fase de expectativa, mas agora os fundos institucionais estão a começar a entrar de forma mais séria.

Os dados confirmam essa tendência. Desde o lançamento do ETF XRP, o fluxo líquido acumulado ultrapassa 587 milhões de dólares, indicando um apoio contínuo de investidores institucionais. Hedera (0,10 dólares), ativos relacionados com Avalanche e Chainlink também começam a mostrar sinais semelhantes.

Outro aspecto importante é a clara segregação do mercado em duas camadas. O primeiro grupo inclui ETFs de BTC, ETH, SOL, XRP, DOGE, que oferecem uma via regulamentada para moedas fiduciárias, podendo ser facilmente integrados por consultores de investimento registados (RIA) e fundos de pensão. Estes começam a beneficiar de uma “prémio de conformidade”.

O segundo grupo inclui ativos não listados em ETFs, como outros tokens de Layer 1 ou DeFi, que continuam a depender de fundos de investidores individuais e de liquidez on-chain. Esta segregação revela uma evolução irreversível do mercado.

Novas iniciativas apontam para uma mudança de paradigma

Dentro do boom dos ETFs de altcoins, surgiram iniciativas inovadoras de grande destaque. O ETF da Bitwise de Solana, por exemplo, não oferece apenas exposição ao preço do SOL, mas tenta distribuir rendimentos on-chain aos investidores através de mecanismos de staking.

É uma abordagem audaciosa, dado que a SEC tem considerado há anos os serviços de staking como emissão de valores mobiliários. No entanto, a Bitwise descreveu explicitamente o produto como “Staking ETF” no seu documento S-1, tentando criar uma estrutura de conformidade que distribua rendimentos de staking. Se bem-sucedido, o ETF de Solana não só captará valorização de preço, mas também fornecerá fluxos de caixa semelhantes a dividendos, superando significativamente o Bitcoin ETF sem rendimento.

Outro exemplo é o ETF de BNB, considerado um teste crucial à postura regulatória da nova liderança da SEC. Com o BNB a cotar a 611,40 dólares, ligado à Binance, que tem uma relação complexa com reguladores nos EUA, o caminho para a sua aprovação é cheio de obstáculos.

Por outro lado, o ETF de Litecoin tem registado fluxos diários de alguns centenas de milhares de dólares, com períodos de zero entrada. O ETF de HBAR também viu uma forte entrada inicial, mas os fluxos subsequentes diminuíram claramente.

O mercado de altcoins, que outrora era dominado por especulação e narrativa, está a evoluir irreversivelmente para uma nova ordem baseada em canais regulamentados e na construção de portfólios institucionais. E o paradoxo de preços que não sobem a curto prazo simboliza essa profunda transformação estrutural. A listagem concentrada de ETFs de altcoins é apenas o começo desta mudança.

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