Redescobrir a sociedade através de "atos de bondade"

Este artigo foi originalmente publicado no Jingjiu Evening News

Redescobrindo a sociedade através de “ações de bondade”

— Leitura de 《Não Trair a Terra Natal》

Professora Zhang Peiguo, da Universidade de Shanghai Jiao Tong, em sua nova obra 《Não Trair a Terra Natal》, aprofunda-se na análise de locais específicos como o Templo de Shan Tang em Jiading, o Templo Ancestral de Foshan e a fábrica de Tang em Haining, sob uma perspetiva de antropologia histórica, revelando as múltiplas faces da participação de comerciantes e nobres na benevolência durante a dinastia Qing: desde os intelectuais que praticavam os ideais confucianos de salvação social, até os comerciantes astutos que usavam essas ações para elevar o prestígio familiar e expandir redes de contato, e ainda intermediários que navegavam entre a pressão oficial e os laços locais. Essas ações de bondade eram simultaneamente práticas morais, estratégias de poder e investimentos sociais, formando um retrato vívido de uma sociedade local Qing onde poder, ética e interesses se entrelaçam.

A análise detalhada da gestão do Templo Shan Tang em Jiading, presente no livro, é uma excelente ilustração dessa perspetiva. A operação do Templo Ren Cun, do Templo de Educação Infantil e do Templo de Qing Jie vai muito além de simples etiquetas de “administrado pelo governo” ou “privado”. Vemos como recursos diversos — desde a alocação de propriedades estatais, a expropriação de terras sem proprietário, doações de comerciantes, empréstimos com juros — até as doações para a construção de templos — convergiam e circulavam de formas variadas e complexas. Os administradores dos templos, por um lado, tinham o prestígio de serem apoiados pelo oficial local, mas, por outro, enfrentavam pressões financeiras para cobrir déficits, tendo que “equalizar as perdas” entre os acionistas. Enquanto gerenciavam os assuntos do templo, também se tornavam figuras essenciais na realização de obras públicas, como o dragagem de rios. Aqui, as fronteiras entre o público e o privado, o oficial e o cidadão, a justiça e o interesse, tornam-se altamente difusas, permeando-se mutuamente e tecendo uma rede de governança local flexível e resistente.

O autor captura com sensibilidade a lógica central dessas práticas e extrai o conceito de “Transformação de Tributos e Contribuições”. Este conceito indica que as ações benevolentes locais estavam, na sua essência, integradas na lógica imperial de extrair excedentes agrícolas e conduzir a governança social. As ações de “justiça” dos nobres e comerciantes eram estratégias para conquistar liderança cultural, acumular capital moral e consolidar o poder local, mas também funcionavam, sob a pressão financeira do império, como uma espécie de “obrigações” que auxiliavam ou até substituíam funções estatais. Trata-se de uma profunda contradição: ao doarem recursos e praticarem a benevolência, esses atores ganhavam prestígio e poder, que, por sua vez, reforçavam a capacidade do sistema imperial de absorver e explorar esses recursos.

O autor aprofunda-se nos arquivos locais, utilizando abundantemente registros de crédito, livros de gestão dos templos, inscrições em monumentos, genealogias e documentos oficiais de condados e distritos, muitas vezes negligenciados. Assim, podemos ler, por exemplo, o memorial do oficial de Jiading, Wang Fuan, solicitando fundos para reerguer o armazém de justiça, refletindo a devastação social após conflitos e a urgência de restabelecer a ordem; ou as lamentações dos administradores do Templo de Conservação de Rações ao lidarem com problemas como “ter muita comida, mas pouca terra” ou “muita terra, pouca comida”; ou ainda, as tensões sutis entre a geração de Huang, que serviu como responsável pelo Templo de Educação Infantil, e os outros membros do conselho, ao lidar com empréstimos e reembolsos. Esses detalhes deixam de ser meros dados frios ou textos secos, tornando-se representações vivas de dilemas de governança, jogos de interesses e relações humanas. Através do “retrato detalhado” desses casos micro, o livro consegue fazer com que conceitos como “Transformação de Tributos e Contribuições” e “Dualidade de Domínio” cresçam naturalmente do solo histórico, carregados de textura empírica e força persuasiva.

Ao ler 《Não Trair a Terra Natal》, adquirimos não apenas conhecimentos sobre a sociedade Qing, mas também uma visão complexa para analisar a história e a realidade. Essa complexidade histórica ainda tem forte relevância para o presente. Quando discutimos responsabilidade social corporativa, o papel de organizações civis ou a participação de elites na sociedade, o livro nos lembra que é preciso ir além do simples debate entre altruísmo e egoísmo. Como construir uma interação saudável na governança social, com responsabilidades claras entre o Estado e a sociedade? Como fazer com que a acumulação de riqueza, a reputação moral e a responsabilidade social se alimentem mutuamente de forma equilibrada? As experiências de sucesso e fracasso dos nobres e comerciantes Qing no campo da benevolência, com suas tensões e dilemas, continuam a oferecer insights valiosos para reflexão.

Ver original
Esta página pode conter conteúdo de terceiros, que é fornecido apenas para fins informativos (não para representações/garantias) e não deve ser considerada como um endosso de suas opiniões pela Gate nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Isenção de responsabilidade para obter detalhes.
  • Recompensa
  • Comentário
  • Repostar
  • Compartilhar
Comentário
0/400
Sem comentários
  • Marcar

Negocie criptomoedas a qualquer hora e em qualquer lugar
qrCode
Escaneie o código para baixar o app da Gate
Comunidade
Português (Brasil)
  • 简体中文
  • English
  • Tiếng Việt
  • 繁體中文
  • Español
  • Русский
  • Français (Afrique)
  • Português (Portugal)
  • Bahasa Indonesia
  • 日本語
  • بالعربية
  • Українська
  • Português (Brasil)