A "crise de narrativa" do Bitcoin: Bloomberg tem razão, mas disse apenas metade

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Geração do resumo em andamento

Escrito por: Uchiha Naruto, Deep Tide TechFlow

As férias do Ano Novo Chinês terminaram, e o Bitcoin silenciosamente quebrou os 64.000 dólares.

Sem colapso, sem cisne negro, sem troca de dinheiro ou fuga de um exchange ou projeto, apenas aquela sensação de cortar carne com uma faca cega.

Cada dia uma queda, cada dia uma queda, o valor de mercado evaporou mais de um trilhão de dólares, mas nem uma notícia decente apareceu.

Foi então que, em 21 de fevereiro, a Bloomberg publicou um artigo intitulado “A crise de identidade de um trilhão de dólares do Bitcoin está vindo de todos os lados”, com três frases principais: o ouro roubou a narrativa de hedge macro do Bitcoin, as stablecoins roubaram a narrativa de pagamento, e o mercado de previsão roubou a narrativa de especulação.

Na minha opinião, a Bloomberg acertou dois terços, mas o mais importante, aquele terço, ela não viu.

Alguns dados que não podem ser ignorados

Quem produz conteúdo costuma cometer um erro comum: ao ver críticas de uma mídia de elite ao seu ativo, a primeira reação é “eles não entendem”, e começa a procurar argumentos de contra-ataque.

Porém, alguns dados nesta matéria da Bloomberg são concretos.

Nos últimos três meses, ETFs de ouro e de temas relacionados ao ouro nos EUA receberam mais de 16 bilhões de dólares em entradas líquidas. Ao mesmo tempo, o ETF de Bitcoin spot saiu 3,3 bilhões de dólares. Essa comparação, no começo do ano, foi especialmente marcante, num cenário macro de geopolitica, dólar fraco e tarifas repetidas, tudo que deveria favorecer o “ouro digital”, mas o capital de refúgio foi para comprar barras de ouro.

Dados mais específicos: em janeiro de 2026, no dia em que o Federal Reserve sinalizou uma postura hawkish, o ouro subiu 3,5%, enquanto o Bitcoin caiu 15%. A correlação entre eles virou -0,27. Se “ouro digital” significa “subir junto com ouro de verdade em tempos de crise”, essa prova, o Bitcoin não passou.

Outro fato relevante: a mudança de postura de figuras como Jack Dorsey, fundador do Twitter, que antes era um grande apoiador do Bitcoin, agora voltou seu foco para as stablecoins. Sua posição na criptoesfera é inegável, e em novembro do ano passado, anunciou que começaria a suportar stablecoins no Cash App.

O crescimento do Polymarket no último ano também é um fato. Apostar na eleição, tarifas, no Federal Reserve, até mais regulamentado que um cassino. Para quem busca a adrenalina, é uma alternativa mais rápida ao mercado de criptomoedas.

Tudo isso, a Bloomberg não está errada.

Porém…

O artigo da Bloomberg tem uma lógica implícita: o valor do Bitcoin vem de seu papel narrativo. Essas funções estão sendo substituídas por outras coisas, e por isso o valor do Bitcoin está se esvaindo.

Essa lógica, por sua vez, tem uma premissa não dita: ela assume que o Bitcoin precisa “vencer” uma função específica para existir.

O ouro também não consegue vencer essa lógica. O ouro não é a melhor ferramenta de pagamento, nem a melhor de especulação; em certos cenários de hedge contra inflação, TIPS (títulos protegidos contra a inflação) são mais eficazes.

Mas o ouro é ouro. Há milhares de anos, ninguém exige que ele “prove sua função”; sua existência é, por si só, valor. A obsessão humana por “escassez, durabilidade e impossibilidade de falsificação” é mais resistente do que qualquer argumento funcional.

O Bitcoin faz a mesma coisa, só que com uma história de apenas dezesseis anos, ainda não chegando ao ponto de ser considerado “óbvio”.

Na Bloomberg, há uma frase bastante afiada: “A maior ameaça ao Bitcoin não é a concorrência, mas a transferência. Quando nenhuma narrativa consegue sustentá-lo, atenção, capital e crença vão lentamente se esvaindo.”

A curto prazo, essa ideia faz sentido, mas ela trata “transferência” e “consolidação” como opostos.

Quando o Bitcoin deixa de ser protagonista de uma narrativa popular, quem continua a segurá-lo são justamente aqueles que não precisam de narrativa. Seus motivos de posse são o efeito de rede, profundidade de liquidez, certeza regulatória e o crescente interesse de instituições soberanas.

Grandes fatos ignorados

Há uma frase no artigo que tem mais peso que todo o restante, mas passou despercebida:

“ETF de Bitcoin spot já tornou o Bitcoin uma presença permanente na carteira de investimentos.”

Isso mudou completamente a composição dos detentores.

Antes do ETF, os principais detentores eram investidores individuais, exchanges, mineradores e algumas instituições com alta tolerância ao risco. Essas pessoas tendem a agir emocionalmente — compram na alta, vendem na baixa. Por isso, em 2018, o mercado caiu 84%, e em 2022, 77%.

Após o ETF, entrou uma nova categoria de investidores: fundos de pensão, fundos soberanos, escritórios familiares, fundos de seguros. Esses investidores compram com um único objetivo: alocação de ativos, compram proporcionalmente à sua estratégia e deixam quieto. Quando o mercado cai, eles reequilibram passivamente, comprando na baixa.

Atualmente, o Bitcoin caiu mais de 40% desde o pico, e em parte, essa queda é sustentada por esse novo fluxo de fundos ETF. Ainda há troca de chips, com grande parte do Bitcoin saindo de mineradores iniciais, acumuladores antigos e profissionais do setor, para as mãos de instituições. Esse processo certamente traz dores de crescimento.

A Bloomberg percebeu esse fenômeno, mas não seguiu adiante. Ela só viu a narrativa se esvaziando, sem perceber que a estrutura de detentores está mudando de “frequente jogador de cassino” para “alocador de ativos”.

Onde está o fundo?

Onde exatamente está o fundo do Bitcoin nesta rodada, ninguém sabe ao certo — só podemos especular.

Porém, há alguns aspectos que valem mais a pena observar do que o próprio preço.

Continuidade do fluxo de fundos para ETFs. O fluxo líquido atual é de curto prazo; se se tornar uma saída contínua trimestral, indica que a demanda institucional por alocação está encolhendo, o que é preocupante. Se estabilizar, é um sinal verdadeiro.

A relação do Bitcoin com o ouro. Atualmente, está em um nível historicamente baixo, o último foi em março de 2020, durante o colapso da pandemia. Essa relação não prevê uma reversão, mas indica uma avaliação relativa de baixa.

O progresso na nomeação de Kevin Warsh. Uma das catalisadoras da queda recente foi a expectativa de fortalecimento do dólar com sua nomeação. Como esse macro variável evolui, influencia diretamente a precificação do Bitcoin como ativo de risco.

Outro ponto que a Bloomberg não mencionou: o debate no governo dos EUA sobre uma reserva estratégica de Bitcoin ainda está em andamento. Se isso se concretizar, a lista de detentores soberanos de Bitcoin se expandirá de El Salvador para a maior economia do mundo.

A análise da Bloomberg é bem feita, mas seu problema está na perspectiva: ela é de um analista de mercado, não de um alocador.

O analista vê a narrativa falhar e chama de crise.

O alocador vê a narrativa falhar e chama de retorno à avaliação.

Ambas as perspectivas são incompletas.

Ainda é cedo para tirar conclusões definitivas. Mas uma coisa é quase certa: o Bitcoin não está morrendo, está se descascando.

E descascar é realmente doloroso.

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