Venezuela e a liquidação de petróleo em USDT: a espada de dois gumes das stablecoins e as lições globais



Recentemente, a história da Venezuela levou-me a uma análise aprofundada da "dupla utilidade" das stablecoins

— são tanto uma ferramenta para evitar sanções quanto uma linha de vida financeira para o povo comum, mas expõem contradições profundas na falha do sistema.

A Venezuela liquida cerca de 80% de sua receita petrolífera em USDT, o que não é apenas um caso de moeda digital, mas um espelho da transformação do sistema financeiro global.

Como grande produtor de petróleo, a estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.) depende há muito da exportação de petróleo para sustentar a economia. Mas, desde 2017, os EUA impuseram sanções severas à Venezuela, cortando seu canal bancário em dólares. Com o bloqueio do sistema bancário tradicional, a PDVSA não consegue realizar liquidações normais de petróleo, levando a interrupções nas exportações.

De acordo com o economista Asdrúbal Oliveros, até o final de 2025, cerca de 80% da receita petrolífera da Venezuela (aproximadamente 12 bilhões de dólares por ano) será liquidada por stablecoins como o USDT. Isso significa que compradores (como refinarias na China) transferem USDT diretamente para carteiras designadas, contornando o sistema SWIFT e bancos americanos, evitando o congelamento de fundos. Dados da Tether (emissor do USDT) também confirmam indiretamente isso: o volume de negociações de USDT na Venezuela lidera na América Latina, até mesmo superando alguns países desenvolvidos.

Por que o USDT se tornou a primeira escolha? Simplificando, ele é a personificação do "dólar digital". O USDT está atrelado ao dólar na proporção 1:1, com baixa volatilidade, facilitando liquidações transfronteiriças. Mais importante, opera em blockchains como Tron ou Ethereum, com velocidade de transação rápida, taxas baixas e sem necessidade de intermediários bancários tradicionais. Desde 2020, a PDVSA começou a exigir que os compradores possuíssem carteiras de criptomoedas e convertessem dinheiro em USDT por intermediários. Esse mecanismo ajudou a Venezuela a manter suas exportações de petróleo e sustentou as finanças do país. Em um ambiente de sanções, o USDT funciona como uma "chave invisível" que abre as portas financeiras fechadas. Isso exemplifica a utilidade das stablecoins para "contornar sanções": permitem que países sob sanções encontrem espaço para manobra no comércio global, evitando o impacto direto do domínio do dólar.

Por outro lado, o USDT também se tornou uma "linha de vida" financeira para o povo comum. A hiperinflação na Venezuela persiste há anos, com o bolívar depreciado em até 480%, tornando o dinheiro em papel praticamente sem valor. Imagine: uma avó de 71 anos pagando contas de propriedade com USDT, pequenos comerciantes usando-o para transações diárias, até mesmo salários sendo pagos em stablecoins. Segundo relatório da Chainalysis, a Venezuela está entre os dez principais países em adoção de criptomoedas, com quase metade das pequenas transações usando stablecoins. Por quê? Porque o USDT oferece estabilidade de valor e facilidade de uso internacional. Em um sistema bancário colapsado e com controles de capital rigorosos, ele se torna uma "moeda paralela". As pessoas usam plataformas como Binance para obter USDT, que utilizam para remessas, compras e poupança. Isso não é apenas inovação tecnológica, mas uma estratégia de sobrevivência. Onde o sistema falha, as stablecoins preenchem o vazio, ajudando milhões a escapar da pobreza.

No entanto, essa situação revela a contradição da "dupla utilidade" das stablecoins. Embora o USDT pareça descentralizado na superfície, na essência ainda está sob controle centralizado. A Tether deve cumprir as regulações da OFAC (Office of Foreign Assets Control dos EUA), podendo congelar carteiras a qualquer momento. Em 11 de janeiro de 2026, a Tether congelou US$ 182 milhões em USDT, envolvendo cinco carteiras Tron, supostamente relacionadas às transações de petróleo na Venezuela. Isso ocorreu após a prisão de Maduro, com maior pressão dos EUA. Nos últimos dois anos, a Tether congelou 41 carteiras relacionadas à Venezuela, totalizando dezenas de bilhões de dólares. Isso significa que, embora o USDT ajude a contornar sanções, também pode se tornar uma "arma de destruição". Não é uma moeda soberana verdadeira, mas uma "cachorrinha com coleira" — útil, mas controlável. Em comparação, o design descentralizado do Bitcoin (sem CEO, sem funções de congelamento) é mais como uma "chave de liberdade", mas sua volatilidade o torna inadequado para transações diárias.

Que lições globais podemos tirar deste caso? Primeiro, ele prova que as criptomoedas estão remodelando a geopolítica. Rússia, Irã e outros países também exploram caminhos semelhantes, usando USDT ou suas próprias stablecoins para liquidação de comércio de energia. Mas os eventos de congelamento do Tether nos lembram: stablecoins centralizadas são vulneráveis à regulação. No futuro, mais países podem migrar para alternativas descentralizadas, como DAI ou inovações além do USDC. Em segundo lugar, evidencia a resiliência do domínio do dólar. Os EUA, por meio do Tether (com reservas superiores a 110 bilhões de dólares em títulos do Tesouro dos EUA), controlam indiretamente uma parte da "economia sombra". Por fim, para investidores como eu, há uma oportunidade: o mercado de stablecoins vai se dividir, com moedas de privacidade e protocolos DeFi (como Monero ou soluções Layer2) potencialmente emergindo. Mas o risco também é grande — tempestades regulatórias podem surgir a qualquer momento.

Em suma, a história do USDT na Venezuela é uma fábula da era das criptomoedas: a tecnologia capacita os mais fracos, mas também revela suas vulnerabilidades. Precisamos de ecossistemas mais maduros, impulsionando uma verdadeira revolução financeira descentralizada. Como investidor-anjo, vejo potencial no Web3, mas também alerto: investir requer cautela e compreensão da dualidade dessa espada de dois gumes.
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