O setor cripto sempre enfrentou obstáculos para crescer diante de zonas cinzentas regulatórias. Agora, após anos sob a rígida supervisão da SEC, finalmente surge uma oportunidade para consolidar uma base estável. A falta de clareza regulatória levou muitos projetos a recorrerem a estruturas de capital pouco convencionais.
Sem diretrizes objetivas, as organizações precisaram questionar: tokens são valores mobiliários? Se forem, como registrá-los? Muitos precisaram desbravar caminhos próprios. O Uniswap é um caso emblemático — foi preciso separar juridicamente o laboratório detentor de equity da fundação responsável pelo token de governança. Na prática, o token de governança era inútil, já que a SEC nunca detalhou como estruturar uma entidade de token blockchain em conformidade.
Agora, com a iminente aprovação do CLARITY Act, o setor pode finalmente receber diretrizes jurídicas claras para operações de tokens cripto em conformidade. Este pode ser o marco de maturidade da indústria.
Não faço críticas aos projetos obrigados a separar equity e tokens. Sob a postura agressiva de Gary Gensler, não havia alternativas nem caminhos regulatórios seguros.
Esse cenário gerou uma onda de altcoins “down-only”. Esses tokens não trazem atributos de equity, mas se tornaram instrumentos para fundos de venture capital cripto marcarem ativos ilíquidos a mercado. Com o enfraquecimento dos chamados tokens “fundamentais”, meme coins e Pumpfun passaram a ser as únicas apostas “justas” do mercado.
Pelo menos há transparência: o que você negocia nunca foi projetado para ter valor intrínseco.
Mas o panorama está mudando. A divergência do mercado acelera — 90% dos tokens seguem em queda, enquanto os 10% restantes contam com forte suporte comprador.
Esse grupo de 10% se mantém por dois fatores: primeiro, suas estruturas de oferta são saudáveis, com baixa pressão de venda por VCs ou investidores; segundo, em geral, vêm de projetos que realmente geram receita. Isso representa uma virada para o setor. O mercado começa a aceitar que “projetos cripto podem ser lucrativos”.
Esses “revenue tokens” lideram o amadurecimento do setor. Com empresas gerando receita, a análise do fluxo de caixa se torna viável e o debate sobre alocação de lucros ganha destaque. Voltamos ao universo das decisões de finanças corporativas e estrutura de capital — surpreendendo muitos, afinal, nem todos deram atenção às aulas de finanças corporativas.
A Hyperliquid impulsiona a tendência dos “revenue tokens”. A exchange iniciou recompras programáticas de tokens a qualquer preço, direcionando 100% da receita para recompras.
No mercado cripto, recompras costumam ser vistas apenas como “redução da oferta para valorizar o token”. Embora isso seja verdade, essa visão ignora um ponto fundamental: qual proporção da receita deve ser destinada às recompras?
Para entender, encare recompras como um tipo de dividendo. Na prática, recompras sempre foram um dividendo mais eficiente do ponto de vista tributário.
No mercado financeiro tradicional, a distribuição de lucros funciona assim:
A empresa gera lucro líquido anual, distribui parte como dividendos e retém o restante como “lucros acumulados” no balanço.
A partir dos lucros acumulados, a empresa pode quitar dívidas, investir na manutenção de ativos, reinvestir no crescimento ou recomprar ações próprias.
Nos últimos anos, grandes empresas têm priorizado recompras por serem mais eficientes tributariamente. Elas aumentam o lucro por ação, impulsionando o preço das ações — semelhante ao dividendo, mas sem tributação imediata para o acionista.
Se o retorno sobre o capital investido (ROIC) superar o custo médio ponderado de capital (WACC), reinvestir os lucros em crescimento é o melhor caminho. Se o valor presente líquido do reinvestimento interno for negativo, devolver capital aos acionistas faz mais sentido.
Empresas maduras, sem oportunidades de alto retorno, devem devolver caixa aos acionistas via dividendos ou recompras.
Em resumo, recompras são um “dividendo aprimorado”.
Mas reflita: alguma empresa em estágio inicial já adotou como estratégia central “distribuir quase toda a receita (nem mesmo o lucro!) como dividendos”?
Certamente não. Isso é ilógico.
O motivo central: quem detém equity acredita que reinvestir os lucros traz retornos superiores a receber dividendos e buscar novos investimentos. Se você investe em equity, aposta no crescimento da empresa — do contrário, não investiria.
Portanto, uma proporção programática e indiscriminada de recompras elevadas não faz sentido.
A proporção ideal de recompras deve ser definida considerando:
Para empresas em estágio ultra-inicial (99,9% do setor cripto), uma proporção razoável de recompras é próxima de zero. Como acionista, sua função é confiar nos fundadores e permitir que foquem na construção.
Esse problema é menos relevante nas finanças tradicionais, pois os direitos de equity são claros: acionistas têm garantia legal sobre o valor residual e os fluxos de caixa da empresa.
No universo cripto, a maioria dos tokens não possui atributos sólidos de equity.
Nesse vácuo, investidores e equipes de projetos recorrem às “recompras” como solução, pois oferecem uma ilusão de direitos de equity. Mas essa prática é ineficiente e limita o potencial de crescimento da empresa.
Se direitos claros de equity fossem estabelecidos para tokens, investidores teriam confiança para permitir reinvestimentos dos lucros, sabendo que têm garantia legal sobre o valor final da empresa. Por enquanto, todos se apoiam nas recompras por parecerem a única alternativa.
Resolver os direitos de equity é fundamental para o amadurecimento do setor.
Por isso, diante do cenário positivo que observo, mantenho forte otimismo quanto ao futuro do setor cripto.





