O mercado de prata no início de 2026 está longe de uma volatilidade comum—apresenta todos os sinais clássicos de um sistema sob pressão terminal. O preço à vista disparou para um recorde acima de US$ 121 por onça no fim de janeiro, antes de sofrer uma das mais violentas quedas em um único dia na história das commodities, com perdas de 31% a 36% em uma sessão. Os preços chegaram a se recuperar brevemente acima de , mas logo retomaram a queda. Os contratos futuros seguiram o mesmo padrão, com a prata de fevereiro de 2026 recuando de 8% a 9% em um dia, em meio a liquidações em cascata provocadas por sucessivos aumentos de margem da CME, que já atingem 60%.
Enquanto a mídia atribui as oscilações à especulação alavancada, chamadas de margem e fatores macroeconômicos como o dólar forte, os dados revelam um quadro muito mais preocupante: o mercado físico de prata está perigosamente apertado, e o mercado de futuros em papel está estruturalmente desalinhado em relação à oferta disponível para entrega. Essa combinação aponta diretamente para uma alta probabilidade de inadimplência nos contratos da COMEX—especialmente o de março de 2026.
A oferta global de prata está em déficit há cinco anos consecutivos, com o déficit projetado para 2026 chegando a 200 milhões de onças. O consumo industrial—impulsionado por painéis solares, veículos elétricos, infraestrutura 5G, hardware de IA e aplicações médicas—segue crescendo em ritmo que a produção das minas não consegue acompanhar. A China, ao classificar a prata como ativo estratégico e restringir exportações, eliminou uma importante fonte de oferta global, acelerando o esgotamento dos estoques disponíveis. Os EUA incluíram a prata na lista de Minerais Críticos e anunciaram o Projeto Vault para estocagem de minerais essenciais. Não se faz isso quando há prata sobrando.
Os cofres de Xangai estão em níveis mínimos em vários anos, similares aos de 2016.
Na própria COMEX, os números são expressivos. Os estoques registrados (prata disponível para entrega) caíram cerca de 75% desde 2020 e agora estão próximos de 82 milhões de onças. Os estoques totais nos cofres giram em torno de 411 milhões de onças, mas a maioria é classificada como “elegível” e não imediatamente disponível para entrega. Só em janeiro de 2026, mais de 33 milhões de onças foram retiradas em uma semana—cerca de 26% do estoque registrado sumindo em dias. As entregas de fevereiro já somam 2.700 contratos (13,8 milhões de onças), e o ritmo não dá sinais de desaceleração.
No mesmo tempo, o interesse aberto no contrato de março de 2026 está entre 85.000 e 91.000 contratos, representando de 425 a 455 milhões de onças de prata teoricamente aptas para entrega. Compare esse volume com as 82 a 113 milhões de onças de metal registrado disponível: a relação entre papel e físico varia de aproximadamente 5:1 no cenário mais otimista a mais de 500:1 no extremo. Mesmo que apenas 20% do interesse aberto exija entrega—estimativa conservadora baseada em precedentes históricos—a COMEX simplesmente não possui prata física suficiente para cumprir suas obrigações.
A volatilidade extrema dos preços é mais uma evidência da fragilidade. A disparada parabólica até US$ 121 foi impulsionada por coberturas agressivas de posições vendidas e squeezes em um ambiente ilíquido. O crash subsequente não foi resultado de vendas físicas em massa, mas sim amplificado por aumentos de margem impostos pela CME, que forçaram participantes alavancados a liquidar posições em massa. As quedas de preço ocorreram em volumes surpreendentemente baixos—às vezes apenas 2.000 contratos vendidos e rapidamente recomprados—destacando a iliquidez crônica. A backwardation apareceu repetidas vezes, e os spreads exchange-for-physical (EFP) se ampliaram para US$ 1,10 por onça, sinalizando uma demanda física urgente que os mercados de papel não conseguem atender.
Os rollovers de contratos de março para meses mais próximos estão ocorrendo em ritmo acelerado, um sinal claro de que participantes estão correndo para garantir metal agora, em vez de arriscar esperar pela entrega mais tarde. Esse comportamento não condiz com um mercado saudável e bem abastecido. É o prelúdio clássico de uma ruptura.
A matemática é implacável. A prata em papel permanece abundante nos derivativos, mas a prata física está cada vez mais escassa. A volatilidade não é ruído aleatório; é a tentativa desesperada do mercado de racionar o suprimento físico em declínio, enquanto a superestrutura de papel segue fingindo abundância. Quando chegar o período de entrega de março e uma parcela significativa do interesse aberto exigir metal real, o sistema enfrentará um teste existencial para o qual não está preparado.
Analistas veteranos já soaram o alerta: março de 2026 pode marcar “o funeral da COMEX”. Uma falha na entrega não seria apenas uma questão da prata—exporia a fragilidade histórica das negociações de futuros de commodities com reservas fracionárias e provavelmente provocaria ondas de choque nos mercados financeiros globais.
Para quem acompanha de perto, a mensagem é inequívoca: o descompasso entre promessas em papel e a realidade física atingiu níveis críticos. A prata física mantida fora do sistema está se tornando a única reserva de valor confiável nesse ambiente.
A jornada está longe de acabar—e a próxima alta pode surgir não por otimismo, mas por necessidade.





