Investidores que buscam lucros rápidos precisam agir com cautela. Por outro lado, quem pretende manter seus ativos por mais tempo ainda pode ter oportunidades. Neste ano, governos e empresas ao redor do mundo começaram a incorporar ativos digitais aos seus balanços. Esse movimento levou alguns investidores a acreditar que o tradicional ciclo de quatro anos das criptomoedas pode estar chegando ao fim.
Em março, o presidente Trump assinou uma ordem executiva que criou uma reserva estratégica de Bitcoin para o governo dos Estados Unidos. O decreto passou a classificar oficialmente todo o Bitcoin e diversas outras criptomoedas detidas pelo governo como ativos de reserva.
Embora o impacto completo dessa ordem ainda seja incerto, 2025 mostrou uma tendência clara: as criptomoedas estão conquistando aceitação no mercado tradicional. Elas deixaram de ser vistas apenas como apostas voláteis de especuladores—os chamados “degens” (abreviação de “degenerate”, termo usado por traders de cripto para se referir à volatilidade extrema e à mentalidade necessária para operar nesse mercado). Agora, o governo dos Estados Unidos reconhece o cripto como uma reserva legítima de valor.
O que isso representa para o mercado cripto na chegada de 2026? As correções bruscas de preço atuais marcam o fim do ciclo de alta? Já é tarde para investir em cripto? Confira as principais tendências a acompanhar.
Vários países já possuem criptomoedas, mas poucos criaram reservas oficiais—designando esses ativos como instrumentos financeiros de interesse estratégico nacional.
Esse cenário começou a mudar em 2025, principalmente com a ordem executiva de março do presidente Trump, e pode se intensificar em 2026.
Por exemplo, em setembro, o Quirguistão aprovou uma lei para instituir suas próprias reservas em cripto. Em outros países, essa iniciativa também está sendo estudada. O Congresso brasileiro avançou com um projeto que permitiria destinar até 5% das reservas internacionais do país para Bitcoin, embora ainda não haja definição sobre a aprovação da lei.
“A Fidelity Digital Assets acredita que mais países podem comprar Bitcoin no futuro, motivados pela teoria dos jogos”, afirma Chris Kuiper, vice-presidente de pesquisa da Fidelity Digital Assets. “Caso mais países incluam Bitcoin nas reservas cambiais, outros podem sentir pressão competitiva para seguir o mesmo caminho.”
E quanto aos preços? “Do ponto de vista da oferta e demanda, qualquer aumento na demanda por Bitcoin pode impulsionar os preços”, diz Kuiper. “O fator decisivo é o volume dessa demanda adicional e se outros investidores estão vendendo ou mantendo seus ativos.”
Os governos não são a única fonte potencial de demanda em 2026. As empresas podem ampliar sua atuação—algumas começaram a adicionar Bitcoin e outras criptomoedas aos seus balanços em 2025. Um dos exemplos mais notáveis é a Strategy (antiga MicroStrategy, ticker: MSTR), empresa de software e análise, que compra Bitcoin de forma consistente desde 2020. Neste ano, mais companhias seguiram esse movimento, transformando-o em tendência. Em novembro, mais de 100 empresas listadas em bolsa—nacionais e internacionais—detinham cripto. Cerca de 50 delas possuem atualmente mais de 1 milhão de Bitcoin cada.
“Existem oportunidades claras de arbitragem, em que empresas podem utilizar sua posição de mercado ou canais de financiamento para captar recursos e comprar Bitcoin”, afirma Kuiper. “Parte desse movimento é impulsionada por mandatos de investimento e fatores geográficos e regulatórios. Por exemplo, investidores que não podem comprar Bitcoin diretamente podem buscar exposição por meio dessas empresas ou dos títulos que elas emitem.”
Na superfície, as compras corporativas aumentam a demanda do mercado e ajudam a valorizar os ativos. Mas é preciso considerar os riscos. “Se essas empresas decidirem ou forem obrigadas a vender parte dos ativos digitais—em um mercado de baixa, por exemplo—isso pode pressionar os preços do Bitcoin ou de outros ativos digitais que possuam”, observa Kuiper.

Fonte: Fidelity Investments. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.
A trajetória do Bitcoin é curta em relação a ativos tradicionais como ações e títulos, mas seu preço costuma seguir um ciclo de quatro anos—do pico de mercado de alta ao próximo, ou de um fundo de mercado de baixa ao outro. Os picos ocorreram em novembro de 2013, dezembro de 2017 e novembro de 2021, com fundos em janeiro de 2015, dezembro de 2018 e novembro de 2022. As oscilações foram intensas: o primeiro ciclo caiu de US$1.150 para US$152, o segundo de US$19.800 para US$3.200, e o terceiro de US$69.000 para US$15.500.
Os movimentos do Bitcoin frequentemente lideram o mercado cripto, que tende a ser ainda mais volátil.
Estamos há cerca de quatro anos do último pico de alta, em novembro de 2021. No último mês, os preços das criptomoedas seguiram em queda. Será que esse ciclo de alta já chegou ao topo?
Se o ciclo de quatro anos se repetir, podemos estar próximos do fim do atual mercado de alta do Bitcoin. No entanto, alguns investidores cripto acreditam que o padrão histórico está se rompendo e que a queda atual é apenas uma correção temporária antes de o mercado retomar a valorização.
O que isso significa na prática? Alguns investidores acreditam que as correções de preço continuarão, mas com volatilidade muito menor—tão suave que não se assemelham a mercados de baixa completos. Outros apostam em um superciclo, com o mercado de alta se prolongando por vários anos. Para ilustrar, o superciclo de commodities nos anos 2000 durou quase uma década.
Kuiper não acredita que esses ciclos desapareçam por completo, já que o medo e a ganância que os impulsionam ainda existem. Ele ressalta que, se o ciclo de quatro anos se repetir, já deveríamos ter atingido um novo recorde histórico e entrado em um mercado de baixa. Apesar da correção desde novembro, ele diz que pode levar até 2026 para confirmar se o ciclo permanece. A queda atual pode marcar o início de um novo mercado de baixa ou ser apenas uma correção em meio a um ciclo de alta—com novos recordes à frente, como já ocorreu várias vezes neste ciclo.
Se essas previsões vão se concretizar, só saberemos por volta de meados de 2026.
Apesar da incerteza no mercado cripto, um ponto está claro: o setor vive um novo paradigma. “Estamos presenciando uma mudança estrutural nos tipos de investidores, e isso deve continuar em 2026”, afirma Kuiper. “Gestores de fundos tradicionais e investidores começaram a comprar Bitcoin e outros ativos digitais, mas, em relação ao capital que podem aportar, estamos apenas no começo.”
Nesse contexto, quem ainda não investiu pode se perguntar: ainda vale a pena comprar Bitcoin?
Para Kuiper, tudo depende do horizonte de investimento. Quem busca ganhos de curto ou médio prazo (quatro ou cinco anos ou menos) pode já estar atrasado—principalmente se o ciclo atual seguir o padrão histórico.
“Porém, pensando no longo prazo, acredito que, para quem vê o Bitcoin como reserva de valor, nunca é realmente ‘tarde demais’”, diz Kuiper. “Enquanto o limite rígido de oferta continuar, cada compra de Bitcoin é uma forma de proteger seu trabalho ou poupança contra desvalorização por políticas monetárias governamentais e inflação.”





