Ethereum está registrando o maior crescimento diário de rede de sua história, um salto estatístico que indica um retorno expressivo da atividade dos usuários.
Na última semana, a mainnet do Ethereum processou 2,9 milhões de transações, atingindo um novo recorde histórico conforme dados da Token Terminal.
Esse movimento foi acompanhado por um aumento expressivo no número de endereços ativos diários, que passou de cerca de 0,6 milhão no fim de dezembro para aproximadamente 1,3 milhão.
O mais relevante é que essa explosão de throughput ocorreu enquanto os custos das transações permaneceram praticamente nulos. As taxas médias seguiram na faixa dos centavos — entre US$ 0,10 e US$ 0,20 — mesmo diante da demanda recorde.

Atividade Onchain do Ethereum (Fonte: Token Terminal)
Para uma rede que historicamente viu taxas dispararem de US$ 50 a US$ 200 durante o boom dos NFTs em 2021-2022, isso representa uma mudança fundamental na acessibilidade econômica.
No entanto, análises forenses indicam que esse crescimento não é totalmente orgânico. Embora métricas superficiais apontem para uma retomada de mercado em alta, especialistas em segurança alertam que grande parte desse tráfego é impulsionada por agentes maliciosos.
Esses atacantes aproveitam as taxas reduzidas para lançar campanhas de “envenenamento de endereço” em escala industrial, atacando usuários com golpes automatizados disfarçados de atividade legítima.
Para compreender o salto repentino no volume, é preciso analisar as mudanças estruturais recentes no protocolo do Ethereum. Por anos, a rede era poderosa, mas inacessível economicamente para a maioria dos usuários.
Leon Waidmann, chefe de pesquisa da Onchain Foundation, ressaltou que, desde que entrou no mercado cripto, as taxas da mainnet do Ethereum eram altas demais para o usuário comum.
Segundo ele, a rede era cara para o varejo, inviável para uso frequente e inviável para construir aplicativos de escala de consumo.
Isso mudou há cerca de um ano, quando desenvolvedores do Ethereum escalaram a rede de forma metódica, buscando preservar descentralização e segurança.
O processo resultou em três grandes atualizações de protocolo que avançaram o roadmap.
A primeira foi o upgrade “Pectra” de maio de 2025, que aumentou a capacidade de blobs ao elevar o alvo de blobs por bloco de 3 para 6 e o máximo de 6 para 9, dobrando o throughput esperado.
Depois, o upgrade “Fusaka”, em dezembro de 2025, trouxe o Peer Data Availability Sampling (PeerDAS), permitindo que validadores verificassem a disponibilidade de blobs por amostragem, sem baixar todo o dataset, aumentando o throughput e mantendo os requisitos dos nodes em níveis razoáveis.
Mais recentemente, o fork Blob Parameter-Only (BPO) em janeiro de 2026 elevou o alvo de blobs de 10 para 14 e o máximo para 21, liberando capacidade significativa para a blockchain.
Os efeitos dessas atualizações foram rápidos: as taxas da mainnet caíram drasticamente e as transações simples voltaram a ser acessíveis.
Waidmann destacou que construir diretamente na Layer 1 voltou a ser viável em escala, atraindo mercados de previsão, ativos do mundo real e pagamentos de volta à mainnet.
Ao mesmo tempo, transferências de stablecoins na rede chegaram a cerca de US$ 8 trilhões no quarto trimestre.
Apesar da atividade recorde indicar sinais de ascensão da blockchain, dados on-chain apontam que essas operações não geraram valor real para a rede.
Dados da Alhpractal mostram que o Metcalfe Ratio — indicador que compara a capitalização de mercado ao quadrado do número de usuários ativos — está em queda. Isso revela que a valorização não acompanha a adoção efetiva da rede.

Metcalfe Ratio do Ethereum (Fonte: Alphractal)
Além disso, o Score de Adoção do Ethereum está no nível 1, o menor da série histórica, refletindo um mercado frio e baixa valorização em relação à atividade on-chain.
Diante disso, Matthias Seidl, cofundador da GrowThePie, sugeriu que o aumento de atividade pode não ser orgânico.
Ele citou o caso de um único endereço que recebeu 190.000 transferências nativas de ETH de 190.000 wallets únicas em apenas um dia.
Segundo Seidl, o número de wallets que recebem transferências nativas se mantém estável, mas o número de wallets que enviam essas transferências dobrou. Ele observou que muitas transferências nativas (envio de ETH puro) utilizam apenas 21.000 de gás, a forma mais barata de transação EVM.

Custo de Transação EVM do Ethereum (Fonte: GrowThePie)
Hoje, essas transferências representam quase metade de todas as transações. Para efeito de comparação, enviar um token ERC20 custa cerca de 65.000 de gás, e uma transferência de stablecoin consome tanto gás quanto três transferências nativas de ETH.
10 de janeiro de 2026·Liam ‘Akiba’ Wright
O recente aumento de atividade on-chain do Ethereum está sendo atribuído a um golpe antigo, reempacotado para a era das taxas baixas.
O pesquisador de segurança Andrey Sergeenkov apontou que uma onda de campanhas de envenenamento de endereço vem explorando o baixo custo do gás desde dezembro, inflando métricas da rede e poluindo históricos de transações com endereços semelhantes, criados para enganar usuários e induzi-los a enviar fundos para atacantes.
O funcionamento desses ataques é simples: golpistas criam endereços “envenenados” semelhantes ao endereço legítimo da vítima, combinando os primeiros e últimos caracteres. Após uma transferência normal, o atacante envia uma pequena transação “dust” para que o endereço falso apareça no histórico recente do usuário.
A aposta é que, em algum momento, o usuário copie o endereço familiar do histórico sem conferir toda a sequência.
Diante desse cenário, Sergeenkov relaciona o aumento de novos endereços Ethereum a esse padrão. Ele estima que a criação de novos endereços ficou cerca de 2,7 vezes acima da média de 2025, com a semana de 12 de janeiro atingindo aproximadamente 2,7 milhões de novos endereços.

Vítimas de Envenenamento de Endereço (Fonte: Andrey Sergeenkov)
Ao analisar os fluxos por trás do crescimento, ele concluiu que cerca de 80% foi impulsionado por transações de stablecoins, e não por demanda orgânica de usuários.
Para testar se era envenenamento, Sergeenkov buscou um padrão típico: endereços que receberam uma transferência de stablecoin inferior a US$ 1 como primeira interação.
Segundo ele, 67% dos novos endereços se encaixam nesse perfil. Em números absolutos, foram 3,86 milhões de 5,78 milhões de endereços que receberam “dust” como primeira transação de stablecoin.
Ele então restringiu a análise aos remetentes: contas que transferiram menos de US$ 1 em USDT e USDC entre 15 de dezembro de 2025 e 18 de janeiro de 2026.
Sergeenkov contabilizou os destinatários únicos de cada remetente e filtrou quem distribuiu para pelo menos 10.000 endereços. O que surgiu, segundo ele, foram contratos inteligentes criados para industrializar a campanha — códigos capazes de financiar e coordenar centenas de endereços envenenados em uma única transação.
Um desses contratos possui uma função chamada fundPoisoners, que, segundo Sergeenkov, dispersa stablecoin “dust” e uma pequena quantia de ETH para gás em um grande lote de endereços envenenados de uma só vez.
Esses endereços então se espalham, enviando “dust” para milhões de potenciais vítimas e fabricando registros enganosos no histórico das wallets.
O modelo depende de escala: a maioria dos destinatários não cai no golpe, mas a operação se paga se uma fração mínima for enganada.
Sergeenkov estima a taxa de conversão em cerca de 0,01%, mostrando que o negócio tolera taxas de fracasso extremas. No conjunto de dados analisado, 116 vítimas perderam cerca de US$ 740.000, sendo uma única perda responsável por US$ 509.000 desse total.
O fator limitante sempre foi o custo. O envenenamento de endereço exige milhões de transações on-chain que só geram receita se uma vítima enviar fundos por engano.
Sergeenkov argumenta que, até o fim de 2025, as taxas da rede Ethereum dificultavam a estratégia de envio em massa. Com os custos de transação cerca de seis vezes menores, o risco passou a valer a pena para os atacantes.
Na visão de Sergeenkov, escalar o throughput do Ethereum sem reforçar a segurança para o usuário criou um ambiente onde a atividade “recorde” se confunde com abuso automatizado.
Segundo ele, a obsessão da indústria por métricas de rede pode ocultar uma realidade sombria, em que espaço barato em blocos subsidia golpes em massa disfarçados de adoção legítima, deixando o varejo com o prejuízo.





