Em 2025, empresas de criptoativos captaram US$ 3,4 bilhões no mercado acionário dos Estados Unidos.
A Circle e a Bullish garantiram cada uma mais de US$ 1 bilhão, enquanto a Gemini valorizou 14% em seu primeiro dia de negociação na Nasdaq. Em janeiro de 2026, a BitGo tocou o sino de abertura da NYSE, subiu 24,6% na estreia e atingiu um valor de mercado de US$ 2,6 bilhões.
Esses pioneiros deixaram claro: Wall Street está disposta a investir em infraestrutura cripto em conformidade regulatória.
O pipeline para 2026 é ainda maior. Kraken, Consensys e Ledger já se preparam para abrir capital, com avaliações de vários bilhões até US$ 20 bilhões. Até mesmo a CertiK, referência em auditoria de segurança, anunciou planos de IPO em Davos.
Exchanges, carteiras, custódia, segurança — os “vendedores de água” do setor cripto estão migrando em peso para o mercado público.
Quando essas empresas vão listar, quais serão suas avaliações e onde estão os riscos? Vamos analisar caso a caso.

Valor de mercado estimado: US$ 20 bilhões
Previsão de abertura de capital: Primeiro semestre de 2026
A Kraken é uma das exchanges de criptoativos mais antigas, fundada em 2011 — um ano antes da Coinbase. Mesmo assim, seu IPO acontece cinco anos depois do da Coinbase. Nesse período, a Kraken enfrentou processos com a SEC, negociações de acordo e reestruturação dos negócios, conseguindo a retirada da ação da SEC em março de 2025.
Seus números financeiros são robustos:
Em 2024, a receita atingiu US$ 1,5 bilhão, com EBITDA ajustado acima de US$ 400 milhões. Só no terceiro trimestre de 2025, a receita foi de US$ 648 milhões, alta de 50% em relação ao ano anterior. A plataforma administra US$ 59,3 bilhões em ativos e registrou US$ 576,8 bilhões em volume de negociações no trimestre.
Em novembro de 2025, a Kraken concluiu uma rodada pré-IPO de US$ 800 milhões, avaliando a empresa em US$ 20 bilhões. Entre os investidores estão Citadel Securities, Jane Street e DRW — grandes criadores de mercado tradicionais apostando que exchanges cripto farão parte da infraestrutura financeira.
No mesmo mês, a Kraken protocolou confidencialmente seu S-1, mirando um IPO no primeiro semestre de 2026.
Se for bem-sucedida, a Kraken será a segunda grande exchange de cripto a listar nos EUA depois da Coinbase, e a primeira a completar todo o processo de IPO na “era pós-Gensler”.

Valor de mercado estimado: US$ 7 bilhões (avaliação de 2022)
Previsão de abertura de capital: Meio de 2026
A Consensys detém alguns dos produtos mais valiosos do setor cripto: a carteira MetaMask, com 30 milhões de usuários ativos mensais, os serviços de nodes Infura, que suportam a maioria dos dApps do Ethereum, e a rede Linea L2. Como “encanadora” do ecossistema Ethereum, praticamente todos os desenvolvedores usam suas ferramentas.
Fundada por Joseph Lubin, cofundador da Ethereum, a Consensys foi avaliada em US$ 7 bilhões após captação de US$ 450 milhões em 2022. Agora, a empresa trabalha com JPMorgan e Goldman Sachs para preparar o IPO, previsto para meados de 2026.
O prospecto deve destacar a receita do MetaMask Swaps. O recurso permite negociar tokens diretamente na carteira, cobrando taxa de 0,875% por transação. Em 2025, a MetaMask adicionou suporte nativo ao Bitcoin, passando de carteira EVM para plataforma multichain, buscando reter os usuários no seu ecossistema.
A grande dúvida para o IPO da Consensys: a empresa busca simultaneamente o token MASK e o IPO. Como as duas iniciativas vão se alinhar? Haverá conflitos de interesse entre acionistas e detentores de tokens? Pode virar um novo estudo de caso em governança corporativa cripto.
Valor de mercado estimado: US$ 4 bilhões
Previsão de abertura de capital: 2026
A Ledger já vendeu mais de seis milhões de hardware wallets, protegendo mais de US$ 100 bilhões em Bitcoin. Mas não quer ser só “vendedora de dispositivo”.
O CEO Pascal Gauthier tem ido frequentemente a Nova York para apresentar a visão da Ledger de se tornar “a Apple da autocustódia”.
A transformação gira em torno do Ledger Live, app que integra hardware wallets, carteiras de software, staking e DeFi. A Ledger está migrando de vendas avulsas de hardware para serviços por assinatura, trocando receitas pontuais por recorrentes.
Wall Street está comprando essa tese.
Em 23 de janeiro, o Financial Times noticiou que a Ledger negocia com Goldman Sachs, Jefferies e Barclays para um IPO na NYSE, mirando avaliação acima de US$ 4 bilhões — quase o triplo da avaliação de US$ 1,5 bilhão em 2023.
Essa avaliação é sustentada por desempenho forte.
Em 2025, a receita da Ledger chegou a centenas de milhões de dólares, o que Gauthier chamou de “ano recorde”. Após o colapso da FTX, o lema “Not your keys, not your coins” voltou à tona, com instituições e investidores migrando para autocustódia.
No último ano, roubos de criptoativos bateram recorde de US$ 1,7 bilhão, o que ironicamente fortaleceu o apelo da Ledger.
Ainda assim, hardware wallets seguem complexas para a maioria dos usuários. O limite de crescimento da Ledger depende de reduzir essa barreira.
Valor de mercado estimado: Não divulgado
Previsão de abertura de capital: 2026
Local de listagem: KOSDAQ da Coreia (Nasdaq também considerada)
A Bithumb já foi a maior exchange da Coreia, antes de ser ultrapassada pela Upbit. Agora, a Upbit controla mais de 80% do mercado, e a Bithumb tem apenas 15–20%.
Em 2024, a Bithumb lançou campanha de taxa zero, recuperando cerca de 25% do market share. Esse esforço caro de aquisição pode ser um prelúdio ao IPO.
A Samsung Securities é a coordenadora, com planos iniciais de listar no KOSDAQ no fim de 2025 e Nasdaq como alternativa. Agora, o cronograma aponta para 2026.
A Bithumb afirma que o IPO não é para captar recursos. A empresa possui mais de KRW 400 bilhões (cerca de US$ 300 milhões) em ativos financeiros e está bem capitalizada. O objetivo é “construir confiança de mercado” via governança pública e auditorias financeiras.
Isso ocorre após anos de turbulências para a Bithumb.
Em 2023, autoridades fiscais coreanas investigaram a Bithumb por suspeita de fraude. Vários executivos foram investigados por suborno relacionado a listagem, e o ex-CEO Lee Sang-Jun renunciou. Um processo judicial de seis anos por uma pane em 2017 terminou com a Bithumb condenada a indenizar usuários.
Para o IPO, a Bithumb fez mudanças na gestão. O ex-presidente Lee Jung-Hoon voltou ao conselho após ser absolvido de fraude na aquisição. O novo CEO é um aliado próximo.
A Coreia tem 18 milhões de usuários de criptoativos, e os volumes diários de negociação frequentemente superam os do mercado acionário.
O IPO da Bithumb sinaliza institucionalização do mercado cripto coreano. Mas, devido ao histórico, investidores vão analisar de perto a governança.

Valor de mercado estimado: US$ 2 bilhões
Previsão de abertura de capital: Final de 2026 – início de 2027
Em 23 de janeiro, em Davos, o CEO da CertiK, Ronghui Gu, anunciou que a empresa vai avançar com o IPO.
A CertiK é a maior empresa de auditoria de segurança em cripto, fundada em 2018 e sediada em Nova York. Já atendeu mais de 5.000 clientes, com códigos auditados protegendo cerca de US$ 60 bilhões em ativos.
Seu quadro de investidores impressiona — a Binance foi a primeira e maior apoiadora, seguida por SoftBank Vision Fund, Tiger Global, Sequoia e Goldman Sachs. Na rodada Series B3 de 2022, a CertiK atingiu avaliação de US$ 2 bilhões.
Mas a CertiK também é uma das empresas mais controversas do setor.
No ano passado, o caso Kraken foi amplamente debatido. A CertiK encontrou uma vulnerabilidade que permitia créditos arbitrários e, durante testes, transferiu cerca de US$ 3 milhões. A CertiK chamou de “operação white hat”; a Kraken disse que foi extorsão. O caso foi público, os fundos devolvidos, mas a reputação da CertiK ficou abalada.
Antes disso, a CertiK auditou a Huione Guarantee do Camboja, plataforma usada para lavagem de dinheiro, negociação de ferramentas de hacking e dados pessoais, e até venda de armas de choque para quadrilhas de golpes no Sudeste Asiático. A CertiK depois pediu desculpas, mas o episódio expôs falhas de gestão de risco nas próprias empresas de segurança.
Gu afirma que abrir capital é “o próximo passo natural para a expansão contínua de produtos e tecnologia”.
Mas, com o prospecto do IPO público, essas controvérsias serão questionadas repetidas vezes pelos investidores. Se a CertiK conseguirá recuperar a confiança é seu maior desafio.
No geral, a onda de IPOs cripto em 2026 dificilmente é coincidência.
O ambiente regulatório está mudando. O presidente da SEC, Gensler, saiu, e o novo comando é mais favorável ao setor, levando à retirada de processos contra Kraken e Consensys. A janela está aberta, e as empresas estão aproveitando a oportunidade.
A estrutura de capital também chegou ao limite. Após várias rodadas privadas, essas empresas têm muitos acionistas e opções de funcionários cada vez menos líquidas. O histórico de cinco anos da Coinbase prova que empresas cripto podem sobreviver no mercado público. Quem está na fila não tem motivo para esperar mais.
Ainda assim, investidores de varejo precisam diferenciar esses IPOs.
Kraken e Ledger têm receita real e modelo de negócio claro; Consensys controla a MetaMask, um produto de entrada, mas lança um token com relação ainda não resolvida entre acionistas e holders. CertiK tem marca forte, mas enfrenta controvérsias, enquanto Bithumb é um caso puramente coreano.
Quando essas ações estiverem disponíveis, saiba exatamente o que está comprando.
Para essas empresas, abrir capital é só o começo.
O sucesso no mercado público depende da capacidade de deixar para trás o rótulo “cripto” e se tornar “infraestrutura financeira”. A Coinbase levou cinco anos para convencer Wall Street de que é mais do que uma plataforma de negociação.
Para as próximas da fila, a jornada está só começando.





