Os ativos tokenizados (RWA) estão impulsionando uma onda global de adoção on-chain. O crescimento do capital e da diversidade de ativos rapidamente transformou esse movimento de um ambiente de testes cripto nativo para o novo palco de Wall Street.
Embora o setor de RWA avance de forma acelerada, TradFi (finanças tradicionais) e cripto seguem em lados opostos. Wall Street valoriza a arbitragem regulatória e a gestão de risco sistêmico, priorizando estabilidade e ordem. Já o setor cripto foca na agilidade da inovação e na descentralização, temendo que estruturas existentes possam impedir o avanço do mercado.
Há alguns meses, a SEC anunciou uma série de isenções para inovação em cripto, previstas para janeiro. No entanto, essa postura pró-cripto e ousada enfrentou forte oposição de Wall Street, e o cronograma foi adiado devido a discussões legislativas sobre o projeto de lei da estrutura do mercado cripto.
Nesta semana, JPMorgan, Citadel e SIFMA (Securities Industry and Financial Markets Association) realizaram uma reunião fechada com o grupo de trabalho de cripto da SEC. Os representantes de Wall Street rejeitaram amplas isenções regulatórias para valores mobiliários tokenizados, defendendo a manutenção dos atuais modelos federais de legislação de valores mobiliários.
O mecanismo de isenção cripto da SEC funciona como um “fast track” para valores mobiliários tokenizados e produtos DeFi, permitindo que esses projetos lancem rapidamente novas soluções — desde que cumpram requisitos de proteção ao investidor — ao contornar temporariamente o registro completo de valores mobiliários.
Porém, as instituições de Wall Street alertaram que facilidades regulatórias para ativos tokenizados podem prejudicar a economia dos EUA. Elas exigem supervisão rigorosa e transparente, em vez de simples isenções. Qualquer isenção voltada à inovação deve ser restrita, baseada em análise econômica detalhada e incluir salvaguardas robustas — não pode substituir o processo regulatório completo.
Ressaltaram que o tratamento regulatório deve ser definido por características econômicas, não por tecnologia ou categorias como DeFi. Apoiaram o princípio “mesmo negócio, mesmas regras” e se opuseram fortemente à existência de padrões regulatórios duplos, argumentando que isenções amplas que enfraquecem proteções históricas ao investidor desestabilizariam e fragmentariam o mercado.
A reunião citou o “flash crash” de outubro de 2025 e o colapso da Stream Finance como exemplos, destacando que excluir valores mobiliários tokenizados das proteções legais atuais exporia o mercado financeiro dos EUA a grandes riscos sistêmicos.
Wall Street também demonstrou preocupação com a tendência da SEC de isentar certos projetos DeFi de obrigações de conformidade. A SIFMA apontou que muitos protocolos DeFi realizam funções centrais de corretora, bolsa ou clearing, operando fora da supervisão regulatória. Ambientes DeFi apresentam riscos técnicos específicos, como negociações predatórias por maximal extractable value (MEV), falhas de precificação em automated market makers (AMMs) e conflitos de interesse opacos. No entanto, DeFi não foi o único foco do encontro; segundo a Decrypt, importantes defensores de DeFi não sabiam do evento.
O encontro também destacou que provedores de carteira envolvidos em atividades com ativos tokenizados que desempenham funções de corretagem e recebem receita por transação devem se registrar como broker-dealers, com distinção clara entre carteiras custodiais e não custodiais.
No fim, a posição de Wall Street é direta: adotar inovação não exige criar um novo sistema regulatório. Em vez de estruturas paralelas, o ideal é integrar os ativos tokenizados à estrutura de conformidade já consolidada.
O aguardado mecanismo de isenção cripto agora enfrenta incertezas. O presidente da SEC, Paul Atkins, suspendeu o lançamento da política de isenção previsto para este mês. Em reunião recente com a CFTC, Atkins afirmou que a indefinição sobre o projeto de lei da estrutura do mercado cripto pode afetar diretamente o cronograma da isenção, e que decisões devem ser tomadas com cautela. Questionado sobre uma data de implementação, ele não se comprometeu a publicar a regra final neste mês ou no próximo.
Além das questões regulatórias, a classificação legal e o tratamento dos valores mobiliários tokenizados ainda não têm definição. Para avançar nessa pauta, Paul Atkins anunciou em novembro passado um sistema de classificação de tokens baseado no Howey Test, esclarecendo quais criptoativos são valores mobiliários e dando maior clareza regulatória.
Em 28 de janeiro, a SEC publicou oficialmente orientações para valores mobiliários tokenizados, apoiando o projeto de lei de estrutura de mercado e oferecendo aos participantes do setor um caminho mais claro de conformidade para atividades relacionadas.
A orientação estabelece que a regulação de um valor mobiliário depende de seus atributos legais e substância econômica — não da tokenização. A tokenização, por si só, não altera o escopo da legislação de valores mobiliários. Apenas colocar ativos on-chain ou tokenizá-los não muda a aplicabilidade da lei federal de valores mobiliários.
Pela definição da SEC, valores mobiliários tokenizados são instrumentos financeiros apresentados como criptoativos, com registros de titularidade mantidos total ou parcialmente em redes criptográficas.
A orientação divide os valores mobiliários tokenizados em duas categorias principais: patrocinados pelo emissor e patrocinados por terceiros, cada uma com requisitos regulatórios próprios.
A primeira categoria é o modelo de tokenização direta do emissor, onde o emissor (ou agente) utiliza blockchain para emitir e registrar dados dos titulares, seja on-chain ou off-chain. Esses valores mobiliários tokenizados devem atender às mesmas obrigações de registro e divulgação dos valores mobiliários tradicionais.
A segunda categoria é o modelo de tokenização por terceiros, que inclui tipos custodiais (em que os titulares de tokens detêm indiretamente valores mobiliários custodiados) e tipos sintéticos (que apenas acompanham o preço dos valores mobiliários subjacentes, sem transferência de propriedade ou direito de voto). Esses produtos podem ser classificados como swaps baseados em valores mobiliários.
A orientação ressalta os riscos adicionais dos produtos tokenizados por terceiros, indicando que esse modelo traz riscos de contraparte e de falência, e que certos produtos estão sujeitos a regras mais rígidas para swaps baseados em valores mobiliários.
A SEC também declarou estar “aberta para negócios” e pronta para dialogar com participantes do mercado sobre caminhos específicos de conformidade, apoiando empresas inovadoras sob a legislação federal de valores mobiliários.
Com a supervisão mais detalhada da SEC sobre RWA, o risco de arbitragem regulatória será consideravelmente reduzido, abrindo espaço para que mais instituições tradicionais ingressem no mercado.





