Quando o mercado se depara com cifras como “US$ 1,5 trilhão”, a reação inicial tende ao ceticismo — será que esse patamar não está superestimado?
Porém, a experiência dos mercados financeiros demonstra que infraestruturas críticas em estágios iniciais são, com frequência, subavaliadas, especialmente quando atendem a critérios como:
As stablecoins estão próximas desse ponto de virada. Elas já ultrapassam o uso restrito à negociação de ativos digitais, entrando progressivamente em pagamentos internacionais, liquidações B2B, títulos públicos on-chain, liquidações de RWA e processos de compensação entre exchanges e custodiantes.
O valor de debater essa previsão não está em saber se um número específico será “atingido exatamente”, mas em identificar a tendência estrutural: a liquidez global em USD está, de fato, acessando novos canais de distribuição e liquidação?
Três conceitos relacionados a stablecoins costumam ser confundidos, levando a avaliações distorcidas:
Se uma stablecoin circula frequentemente entre instituições, exchanges, criadores de mercado e canais de pagamento, o mesmo dólar pode ser registrado várias vezes no volume de transações em curto prazo. Assim, um volume elevado de transações não significa, automaticamente, “geração de riqueza na mesma magnitude”.
Longe de reduzir a relevância das stablecoins, isso evidencia seu papel como “amplificadores de eficiência de giro”.
Em síntese, US$ 1,5 trilhão representa mais uma projeção de “capacidade de vazão financeira” do que de “tamanho do pool de ativos”.
Para profissionais, a pergunta-chave é: quais demandas reais esse pipeline atende, e ele pode operar de forma contínua, transparente e sob supervisão regulatória?
Pagamentos internacionais tradicionais são lentos, com múltiplos intermediários e taxas pouco transparentes.
Stablecoins oferecem vantagens objetivas:
Quando empresas avançam do “piloto” para a “integração operacional”, o volume de transações deixa de ser pontual, tornando-se fluxo recorrente do dia a dia.
Instituições acessavam ativos digitais tradicionalmente via ETFs ou contas de custódia. Agora, observa-se uma transição: algumas instituições utilizam stablecoins como instrumentos on-chain para gestão de caixa, recompra, garantias, liquidez de curto prazo e hedging de risco.
Quando incorporadas aos sistemas de tesouraria institucional, o volume de transações das stablecoins passa a refletir ciclos de gestão de ativos e passivos, não apenas o sentimento do varejo.
O diferencial de RWA não é apenas “representar ativos on-chain”, mas criar ciclos fechados auditáveis, negociáveis e liquidáveis. Stablecoins tornam-se o meio natural de liquidação nesses fluxos.
Com a expansão de títulos públicos on-chain, cotas de fundos e produtos de notas, o volume de transações de stablecoins cresce passivamente, pois cada entrega de ativo exige um meio de liquidação.
A atividade de stablecoins era concentrada em poucas blockchains.
Com o desenvolvimento de mensagens cross-chain maduras, abstração de conta unificada, bridging regulado e camadas de liquidação de baixo custo, as stablecoins passam a ser empregadas em mais cenários.
Isso traz dois efeitos principais:
Projeções otimistas dependem da gestão contínua dessas restrições. Se os riscos abaixo não forem superados, as estimativas de escala podem ser drasticamente revistas para baixo.
Definições, licenças, requisitos de reserva e mecanismos de resgate de stablecoins variam entre regiões.
A fragmentação regulatória prolongada divide a liquidez global em “pools regionais”, reduzindo a eficiência do crescimento do volume de transações.
Stablecoins mainstream dependem de emissores centralizados e custódia bancária.
Isso gera riscos como permissões de congelamento, disponibilidade de contas, prioridade de resgate e exposição à contraparte.
Em períodos de estresse, a capacidade de realizar “resgates suficientes, rápidos e com baixa fricção” é o teste máximo.
Bridges, oráculos, infraestrutura de carteiras e gestão de permissões de contratos seguem como alvos recorrentes de ataques.
Incidentes de segurança frequentes levam instituições a exigir maiores descontos de risco, retardando a migração de operações reais.
Volume de transações não equivale a liquidez de qualidade.
Para grandes liquidações, o mercado prioriza:
Falta de profundidade dificulta o uso de stablecoins em liquidações institucionais de grande porte.
Stablecoins atuam em ambiente competitivo.
Elas enfrentam:
Assim, o teto das stablecoins depende, não da narrativa, mas da capacidade de manter eficiência relativa.
A virada fundamental das stablecoins não está em “ser usadas mais vezes para transferências”, mas sim na elevação de seu papel.
O caminho se desenha assim:
Nos estágios 2 e 3, o volume de transações das stablecoins passa a refletir “tráfego de infraestrutura”, não mais “tráfego de sentimento de mercado”.
Isso acarreta três impactos estruturais:

Para evitar julgamentos binários, recomenda-se uma análise baseada em cenários.
É recomendável acompanhar continuamente estes indicadores, ao invés de depender de notícias pontuais:
“US$ 1,5 trilhão até 2035” deve ser entendido como uma meta ousada, não uma certeza.
O valor desse número está em sinalizar que as stablecoins estão migrando de ferramentas de negociação para infraestrutura financeira — uma transformação já visível em pagamentos, clearing e liquidação, gestão de fundos institucionais e emissão de ativos on-chain.
Uma avaliação objetiva seria:
Portanto, ao analisar projeções de longo prazo como as da Chainalysis, a postura profissional não é otimismo cego nem rejeição sumária, mas foco em variáveis comprováveis: quem utiliza stablecoins, em quais cenários, se a liquidação de baixa fricção é sustentável e se os sistemas suportam testes de estresse.
Enquanto essas respostas seguirem positivas, o volume de transações de stablecoins pode, de fato, atingir novos patamares na próxima década.





